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Tuesday, 24 March 2009

Lições da minha viagem ao Marrocos

 

Nunca se volta a mesma pessoa depois de uma viagem, acredite, sempre que saio de casa com a minha mochila nas costas e bato a porta eu já começo a pensar. Quantas pessoas novas irei conhecer? Quantas lições tirarei do lugar visitado? O que mudará em mim ao regressar? E sim, sempre volto diferente, sempre retorno melhor do que fui, com uma visão mais abrangente do mundo e das pessoas, mais tolerante. Todas estas sensações me causam um bem estar inexplicável e admito que sou um dependente dela, o ato de viajar foi a substância que experimentei a primeira vez e sem me avisarem me tornei dependente dela. Porque é que não me avisaram que viajar poderia ser tão perigoso? Já aceitei que terei que viver o resto dos meus dias com a necessidade quase incontrolável de viajar e manter meu corpo e espírito saciado com a sensação de me tornar uma pessoa melhor e mais consciente de si e do mundo onde vivemos.

 

Com tudo isso, a escolha do meu último destino não poderia ter sido mais acertada, o Marrocos há tanto para ensinar e eu tão ancioso por aprender. Ao visitar aquele país vi um povo sofrido e pobre, apesar de possuirem uma cultura tão diferente da brasileira é possível reconhecer milhares de semelhanças entre ambos estes povos, todos buscam uma vida melhor, todos buscam serem compreendidos, todos buscam a felicidade, mesmo que felicidade seja uma coisa totalmente distinta para cada um destes povos, ainda assim é felicidade. Ao andar pelo Marrocos e observar seu povo pude ver que é íncrivel como os pobres do mundo se parecem, somos todos iguais, de carne e osso, com medos, anseios e desejos.

 

Visitar o Marrocos me fez ver o lado humado do mundo árabe e que desde o 11 de Setembro foi-lhes tirado este direito. Esta viagem me fez ver coisas que meus olhos não conseguiam ver antes, vi a dignidade do povo árabe que tristemente lhes havia sido roubada por culpa de alguns poucos muçulmanos autoritários que ainda fazem uma interpretação dura e cheia de equívocos do livro sagrado, o corão.

 

 

Vi pelas ruas muitas mulheres vestidas com suas burcas que até então eram para mim corpos sem rostos a perambular, no entanto ao ter a oportunidade de conversar com algumas delas vi que atrás daquele manto que lhes cobre o rosto há mulheres que lutam pela vida, por seus filhos, por mais direitos e responsabilidades numa nação que aos poucos percebe que homens e mulheres devem possuir diretos iguais. Ainda há um longo caminho pela frente a ser percorrido mas as marroquinas de hoje estão abrindo caminho para as novas gerações que vêm por ai e que terão a difícil missão de conciliar tradição e modernidade num país como o Marrocos.

 

Vi e conversei também com marroquinas que nem sequer usam o véu, poderiam facilmente ser confundidas com ocidentais, mulheres que usam calças jeans, que trabalham e seguem uma carreira da qual têm muito orgulho e estão anciosas por mudanças, anciosas por um novo tempo.

 

Pude conhecer um país com uma natureza tão diversa, vi neve no topo do Atlas e pude conhecer a aridez do deserto do saara, um país que também possui terras férteis, um litoral maravilhoso, uma cultura rica, diferente de tudo o que tinha visto até hoje.

 

 

Nunca vou me esquecer das palmeiras do Marrocos, dos cheiros, dos sabores, da gratidão de um povo que irá a todo custo tentar puxar conversa contigo no trem, no ônibus, numa ânsia para saciar a curiosidade que possuem do mundo externo, um mundo onde geralmente eles não têm direito de entrar devido as duras restrições na concessão de vistos para que eles possam um dia ver com seus próprios olhos o que há além de suas fronteiras. Também não esquecerei dos marroquinos que gentilmente me convidaram a conhecer suas casas, suas famílias, seus filhos e que com grande generosidade ofereciam a mim, o visitante, o melhor que possuiam. E em troca queriam saber mais sobre o Brasil e o que um brasileiro fazia num país tão distante como o Marrocos.

 

Sempre dizia que estava ali para aprender com eles, e a resposta de um deles me chamou a atenção. Ele disse que eu não precisava aprender nada do que eles tinham para ensinar, que eu já era um pessoa estudada e que Alah tinha separado um bom destino para mim.

 

Tentei lhe convencer do contrário mas foi em vão. No entanto aquele humilde marroquino me fez pensar que por mais que eu tenha estudado, ao todo 16 anos passados dentro de escolas e universidades minhas melhores aulas tinham sido em mercados, museus, ruínas, festas populares, templos e a na própria natureza. Meus professores foram os milhares de indivíduos que cruzaram meu caminho e que, com generosidade e orgulho de sua terra, me contaram histórias e me ensinaram a entender melhor o que estava à minha frente.

 

Na minha opinião os grandes viajantes deveriam ser reconhecidos com um diploma especial. Porque não conceder mestrado ou doutorado àqueles que dedicaram tanto tempo e suor em suas andanças pelo mundo?
Ainda estou distante de merecer tal reconhecimento mas conheci muitos por aí que já o deviam possuir. No entanto tenho fé em Deus que ainda terei oportunidade de descobrir muita coisa neste mundo que ainda tanto têm a me mostrar.

 

Inshallah!!! (Se Deus quiser)

 

Sunday, 22 March 2009

O Deserto do Saara

 

 

 

Ao chegarmos as portas do deserto, pegamos nossos camelos e os 14 viajantes foram divididos em duas  caravanas com 7 camelos cada e então saimos pelo Deserto do Saara numa viagem de camelo de três horas até a nossa tenda berbere a alguns quilometros dali onde iriamos passar a noite no meio do Deserto do Saara.

No caminho, um dos berberes que nos acompanhavam nesta viagem de camelo veio me contar que o camelo que eu montava se chamava “chocolat” devido ao seu pelo um pouco mais escuro, todos os camelos tinham nomes e pelo caminho estava extasiado com tamanha a beleza do deserto, não conseguia conter o sorriso em meus lábios e tamanha era a felicidade de estar ali, eu não conseguia acreditar, eu estava no Deserto do Saara.

Chegamos a nossa tenda já de noite, fazia tempo que não montava e minha bunda estava dolorida com as três horas  de viagem, o lombo do camelo não é tão confortável assim. Colocamos nossas mochilas num canto e fomos explorar em volta do nosso acampamento. Brincamos na areia, rimos, contamos histórias e celebramos a oportunidade de estar ali. Mais tarde nos foi preparado um jantar onde comemos a maneira berbere, ou seja, com as mãos, após o jantar era hora de um pouco de música e os 3 homens que tomavam conta da tenda trouxeram os tambores e começaram a tocar para o nosso grupo, tudo isso em volta de uma fogueira para espantar o frio do deserto e com o céu estrelado a nos fazer companhia.

 

 

 

 

Após a música era hora de dormir pois no dia seguinte todos queriamos acordar o mais cedo possível para vermos o nascer do sol no Deserto do Saara. Todos entraram para a tenda, eu não consegui, estava ainda extasiado com toda aquela beleza. Mesmo sabendo que corria o risco de ser picado por alguma cobra ou escorpião peguei o meu saco-de-dormir e subi até uma duna de areia e dormi ali, a olhar as estrelas que no deserto, sem nenhuma luz por perto pareciam ser maiores, era quase possível toca-las e a lua era de uma beleza brutal.

Uma outra coisa que me fascinava era o silêncio, acho que nunca havia estado num lugar tão silencioso assim, nada quebrava o silêncio da imensidão do deserto, naquela noite com a companhia das estrelas várias coisas passaram pelos meus pensamentos, lembranças do meu pai, meus medos, receios, sonhos e anseios, é incrível como o deserto nos faz pensar, nos mostra que somos mesmo um ínfimo grão de areia na imensidão deste mundo e assim, ali, no topo daquela duna, adormeci a pensar na minha vida.

 

 

 

Algumas horas depois acordei com o iniciar do dia, ainda não havia luz em abundância e o sol ainda não nos dava sinal de sua graça mas resolvi me livrar do saco-de-dormir e subir até uma outra duna um pouco mais alta para acompanhar todo o espetáculo do sol de camarote.

Descobri que não é nada fácil subir uma duna, a areia fofa é extremamente díficil de ser escalada, tive que fazer várias paradas pelo caminho até chegar ao topo da duna maior mas finalmente consegui. Ainda a respirar ofegante, tamanho o esforço para chegar ali, me sentei e fiquei a espera.

 

Minutos depois e ali estava ele, o Deserto do Saara iluminado. O sol nascia sobre os montes de areia, que se sucediam como as dobras de um imenso lençol. Ao fundo, a bola de fogo. Danem-se as pernas bambas e o vento gelado. Aquilo era o Saara. Aquele era o Marrocos.

Aquele nascer do sol era mais um dos momentos que marcariam minha vida para sempre, talvez o clímax da minha viagem pelo Marrocos, a sensação de liberdade que aquele momento me causava era magnífica, linda, singela e cheia de emoção.

Sem sombra de dúvida, nunca esquecerei aquele momento.

 

 

 

 

Pra lá de Marrakesh

 

 

A viagem à parte marroquina do Deserto do Saara é daquelas coisas que entraram para os momentos inesquecíveis da minha vida. Uma experiência que por mais velho que eu fiquei as lembranças nunca sairão da minha memória.

 

Era uma terça-feira, tive que acordar cedinho, por volta de 06:00hs da manhã pois ia encontrar com o resto do grupo na praça “Jma el Fna” às 07:00hs. O grupo era formado por 14 pessoas, 4 alemães (3 meninas e um rapaz), um muito simpático casal de franceses, um outro casal onde o marido era belga e a esposa holandesa, dois amigos espanhóis a viajar juntos, uma senhora e um rapaz holandêsese que viajavam sozinhos, um japonês e um brasileiro (eu!!!) mais o nosso motorista que supostamente deveria falar francês mas que mais tarde descobrimos falava somente árabe.

 

Nos encontramos no horário combinado e partimos em direção ao sul do Marrocos para vermos o tal deserto. Viajaríamos o dia todo até Merzouga, a cidade conhecida como as portas do deserto marroquino, onde pegaríamos os camelos e andaríamos mais 3 horas até nossa tenda montada no meio do deserto.

 

Mas até chegar lá muita coisa aconteceu. Ao sul de Marrakech existe uma cadeia de montanhas enormes, conhecidas como Atlas, o Atlas sempre foi uma barreira natural entre o norte e o sul do Marrocos, tanto é que não há trens para o sul do Marrocos, seria impossível transpor estas montanhas com uma linha férrea.

 

 

 

Para chegar a Merzouga uma estrada sinuosa, sem acostamento e cheia de curvas nos leva montanha acima, com penhascos altíssimos, olhar para baixo era de dar medo e um tremendo frio na barriga mas trazia um bocado de aventura e eu adoro aventuras, um simples deslize do nosso motorista marroquino e não sobraria nada de nada dessa salada de nações a bordo do nosso mini ônibus.

 

Ao chegarmos ao topo do Atlas a visão era magnifica, neve, muita neve. Sim, quem disse que não há neve na África??? Paramos em um café que ficava bem no topo do Atlas, a vista era de tirar o fôlego, apesar que eu já estava sem fôlego de pensar na possibilidade de rolarmos penhasco abaixo. Não havia melhor momento para tomar mais um copo do tradicional chá de menta para aquecer o corpo pois naquele ponto da montanha a temperatura que era exibida no termômetro do mini bus era de 5 graus negativos. O gelo tomava conta de tudo naquela parte do Marrocos e a sensação de frio era ainda pior devido aos fortes ventos que teimavam em soprar.

 

Chá tomado e retornamos a estrada, ainda tínhamos muito chão pela frente e confirmando a lei da gravidade, tudo que sobe tem que descer, e esta era a próxima etapa da viagem, descer o Atlas com nosso simpático motorista que só falava árabe. Como eu tinha sentado na parte da frente acabei por ser a pessoa com a dura tarefa de "comunicar" com o motorista, pedir informações e repassar ao resto do grupo. Com poucas conversas eu já tinha percebido que até o fim da viagem eu aprendia árabe mas não conseguiria fazê-lo entender minhas perguntas em inglês ou francês. Mas o fato importante é que ele sabia o caminho a seguir e nos levaria ao deserto e isso era tudo o que nos interessava naquele momento.

 

 

Terminada a descida do Atlas a paisagem mudou drasticamente, a estrada sinuosa continuava sem acostamentos mas agora era uma reta a perder de vista, a neve tinha dado lugar a uma paisagem árida, seca e em poucas horas saímos de uma temperatura de 5 graus negativos para 32 graus positivos, acho que nunca em minha vida tinha sofrido uma mudança de temperatura tão brusca.

 

 

 

 

Pelo caminho fizemos diversas paradas para cafés, idas ao toilet (leia-se mato, quando havia mato para ir), compras de artesanato local, fotos em lugares fantásticos e mais tentativas sem sucesso de comunicação com o motorista. Sem perceber o grupo de viajantes havia se tornado uma pequena família onde bolachas, bolos, garrafas de água e refrigerantes eram partilhadas entre os viajantes e ríamos da nossa falta de comunicação com nosso motorista.

 

 

 

 

Finalmente, após horas de uma cansativa viagem chegamos a Merzouga e até as portas do deserto. De longe já avistávamos o início do deserto e ao aproximarmos mais, vimos nossos camelos que nos levariam pela próxima etapa da viagem, estávamos ansiosos, e ver o deserto já não era mais suficiente, precisamos tocar a areia, sentir quão fina ela era, sentir a alma do Deserto do Saara.

Aït Benhaddou

 

 

 

Com uma colina de arenito rosa por detrás, a ksar de Aït Benhaddou fica na margem esquerda do rio Wadi Mellah.

Pode alcançar a o lugar a pé a partir da aldeia recentemente estabelecida na margem oposta. O rio Wadi costuma estar seco, exceto no inverno e na primavera, que foi uma das épocas que estive lá. Neste caso tivemos que atravessar o rio de jumento e pagar 10 dirhams por isso (1 euro) para ir e voltar.

 

 

 

A pitoresca aldeia de Aït Benhaddou, que foi muitas vezes usada como local de filmagens, pode ser explorada sem um guia. em tempos foi fortificada e tem um egberm (celeiro comunitário), hoje em ruínas. Foi erguida perto de água e de terrenos aráveis, num lugar protegido dos ataques inimigos, e tem um impressionante conjunto de kasbabs de pisé ocre.

 

Desde que a aldeia foi classificada Patrimônio Mundial da UNESCO, algumas das kasbabs foram restauradas. As torres das kasbabs são decoradas com arcos cegos e designs geométricos em relevo negativo, criando um jogo de luz e sombra. Por detrás da kasbab há casas simples de argila. Hoje, a ksar é habitada por menos de dez famílias e é um dos lugares de passagem obrigatória para os viajantes a caminha do deserto, não deixem de passar por aqui.

 

 

Marrakesh

 

 

 

Marrakesh é uma cidade tão importante no Marrocos que deu nome ao país. Durante mais de dois séculos, esta cidade berbere, no ponto de intercâmbio entre o Saara, o Atlas e o Antiatlas foi centro de um grande império, e no interior das muralhas da cidade podem ver obras de ilustres construtores. É a capital do grande Sul e, apesar de ser apenas a terceira maior cidade do Marrocos depois de Casablanca e Rabat, os seus magníficos palácios e palmares continuam a fascinar os visitantes tornando-a a cidade mais importante do Marrocos em nível turistico.

 

 

 

Uma cidade que me impressionou, moderna, ampla, cosmopolita. Vê-se gente do mundo inteiro a caminhar pelas ruas e becos de Marrakesh, provando que o Marrocos é um destino da moda. Não chegaria a afirmar que é um país “tourist friendly” ainda falta muito para isso mas está no caminho. Ainda falta alguma infra-estrutura, melhores guichês de informação aos turistas e menos apelo para que os turistas comprem qualquer coisa que lhe ofereçam. Precisa-se convencer os comerciantes que deveriam deixar de ver os turistas como carteiras ambulantes e encara-los como pessoas interessadas em descobrir mais sobre o país, mas que também gostam de fazer compras mas sem a pressão existente no Marrocos.

 

A melhor maneira de se locomover em Marrakesh e basicamente em todas as grandes cidades do Marrocos é de taxi. Existem dois tipos de taxis no Marrocos, os “petits taxis” e os “grands taxis”. Os ônibus com linhas municipais costumam andar sempre cheios e o destino escrito em árabe na parte da frente do ônibus não ajuda em nada os turistas, evite-os drasticamente.

Os petits taxis são proibidos por lei de irem além das áreas urbanizadas e só podem ser usados para trajetos curtos. O uso do taxímetro não é muito comum e deve-se negociar antes mesmo de entrar no carro o valor da corrida. Este tipo de taxi levam até quatro pessoas e não se assustem se o motorista parar pelo caminho para apanhar mais passageiros indo na mesma direção, isto é totalmente comum no Marrocos. Qualquer viagem usando um petit taxi não deve nunca custar mais do que 20 dirhams (2 euros) mas o primeiro preço será sempre astronomicamente mais alto do que isso, negocie sempre.

 

 

 

Em contrapartida os grands taxis são carros maiores, são usados para viagens entre vilas e cidades. Este tipo de taxi nem chegam a possuir taxímetro e o custo da viagem deve ser sempre acordado antes. Se viajar em grupo, na maioria das vezes é mais barato se locomover entre cidades usando um grand taxi do que de ônibus ou trem. Não se espante se o motorista parar o carro durante a viagem para orar, um bom muçulmano faz suas orações cinco vezes ao dia, como manda o Corão.

 

O trãnsito em Marrakesh é caótico, sinais de trânsito não são respeitados, a lei que existe é a do maior, o maior sempre possui preferência. Qualquer motorista marroquino ficaria impossibilitado de dirigir se lhe tirassem a buzina do carro, eles a usam a todo o momento, tornando o trânsito uma loucura de sons, pessoas, carros, motos, charretes, jumentos e camelos. Muito cuidado ao atravessar as ruas, não há muito respeito pelos pedestres.

 

As viagens de ônibus e trem entre cidades é comum, ambos os serviços são baratos e a qualidade dos transportes é boa. Em viagens muito longas recomendo o trem pois os ônibus costumam ter assentos com pouco espaço e tornam longas viagens em um martírio. Sendo baratos, não hesite em comprar bilhetes na primeira classe dos trens, são muito confortáveis e sua chance de encontrar outros marroquinos que falem inglês sobe drasticamente.

 

 

 

Em Marrakesh o que mais impressiona quem a visita é a sua praça principal, chamada Djemaa El Fna. O movimento começa cedo com o sol já ardendo sob a cidade, encantadores de serpente, mágicos, malabaristas, acrobatas, mulçumanos sentados em tapetes lendo o Alcorão, dentistas que exibem milhares de dentes extraidos como prova de sua competência. Tudo acontece ao mesmo tempo, e o tempo ali nada mais é do que a soma dos segundos que definem novos sentidos.

 

- Quer tirar uma foto? Me pergunta em francês um garoto vestido numa jalaba (espécie de camisolão típico) amarela, fazendo evoluções com um chapéu preto enquanto toca um instrumento de metal.

- Sim, posso?  Respondo eu.

- Claro. Custa 10 dirhams (1 euro).

 

 

 

A praça Djeema El-Fna, em Marrakesh, ocupa um grande terreno asfaltado no centro da cidade. O garoto que pediu grana para ser fotografado não é exceção. As coisas funcionam assim. A praça vive repleta, dia e noite, de malabaristas, mulheres que aplicam tatuagens de hena (mas somente em outras mulheres), acrobatas, macacos, crianças lutando boxe e encantadores de serpentes. Tudo envolvido no batuque incessante dos grupos de música, um som hipnótico que não desaparecerá tão cedo da minha cabeça. Num dos lados da praça ficam perto de 50 barracas que servem excelente comida. Não se sabe de onde vem a carne, como e se os cozinheiros lavam as mãos, mas o padrão de higiene está à altura das bancas de pastel de feira de São Paulo. Cuscuz, brochetes de carne e frango, salada e tajine, tudo servido ali e bem barato. Perdi o receio e comi de tudo por ali, admito que pulei a parte dos caracois e não passei mal com nada, trazendo para casa a lembrança de sabores que nunca havia experimentado antes.

 

Marrakesh fica ao sul do país e é uma das chamadas cidades imperiais. Foi fundada em 1070 por berberes, o povo originário do deserto que forma uma das mais importantes etnias do Marrocos. É tombada pelo Patrimônio Histórico da Humanidade. Em seus arredores, estão resorts luxuosos. Certo dia fui conhecer o Palácio da Bahia, construído pelo grão-vizir Si Ahmed Ben Moussa entre 1898 e 1901. Bahia era como se chamava sua mulher favorita, ele tinha quatro, além de 24 concubinas (a poligamia ainda é legal no Marrocos, mas está em completo desuso). A arquitetura não é de cair o queixo, perto do que eu ainda veria, mas o palácio possui uma atmosfera envolvente, principalmente no pátio, onde as moças do harém pegavam um bronzeado.

 

 

 

Os jardins de Marrakesh são mais uma de suas marcas registradas. O mais espetacular é o Majorelle, construído em 1920 pelo pintor francês Jacques Majorelle, cujo dono era o falecido estilista Yves Saint Laurent, que o abriu ao público. Com 20 acres e um pequeno museu, montado no estúdio de Majorelle, ele é um oásis de tranqüilidade na agitação de Marrakesh.

 

 

 

De qualquer ponto da cidade se vê a torre Koutoubia, minarete erguido no século 14 que paira sobre toda a cidade. Da Koutoubia se ouve a voz do muezim chamando os fiéis para rezar "Allah u akbar!" ("Deus é grande!"), ele repete várias vezes nos cinco momentos em que todos os muçulmanos são chamados a horar a cada dia.

 

Após visitar Marrakesh duas perguntas insistem em ficar em minha mente. Conseguirá uma cidade tão exótica como Marrakesh conciliar tradição e modernidade? Conseguirá esta cidade manter seu estilo de vida juntamente com a invasão de ocidentais que a cada dia movimenta as ruas de Marrakesh? Sinceramente espero que sim pois essa é a magia de Marrakesh.

 

Koutobia

Saturday, 21 March 2009

Fez

 

 

Situada entre os terrenos férteis do Sais e as florestas do Médio Atlas, Fez é a mais antiga das cidades imperiais do Marrocos, vista de cima de um monte Fez é um tecido urbano compacto, encerrada por muralhas defensivas e um mar de telhados de onde emergem o maior número de antenas parabólicas que já vi até hoje. Fez é a concretização da história do país e a sua capital intelectual, espiritual e religiosa, tendo sido declarada Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO.

 

 

 

A cidade está dividida em duas partes Fez Jedid e Fez el-Bali. Fez Jedid sem muitos atrativos, é marcada pela presença do suntuoso palácio Dar El Makhzen. Fez Bali, por sua vez, concentra a maior e mais complexa medina do mundo árabe, um enorme labirinto de vielas apertadas e tortuosas.
Uma aventura irresistível, entrar na medina sem a companhia de um morador da cidade ou guia pode implicar em um mergulho claustrofóbico, sem tempo definido, num fluxo de comerciantes histéricos à busca de fregueses, gente apressada e jumentos com o lombo cheio de mercadorias. Definitivamente um assalto aos sentidos. Sozinho, pode-se passar um dia inteiro dentro da medina em busca de uma saída e recomendo totalmente que contratem um guia para fazer este tour, o que não é nada caro no Marrocos. Imperdível!

 

 

Meu guia, Mohammed, é um tipo gordo, de óculos, gesticulador e falante, um marroquino autêntico e que foi minha companhia pela medina. A medina de Fez é um labirinto de mais de 9 mil vielas e becos. Perto de 500 mil pessoas moram e trabalham ali. Há mais de mil mesquitas e 400 casas de homens santos, proibidas para não-muçulmanos, e uma infinidade de souks, como são chamados os mercados. Vende-se de tudo, roupas, móveis, tapetes, jóias, temperos, frutas, flores, rádios, discos, sanduíches de pâncreas recheados de grão-de-bico e pimenta. Cabeças de cabra ficam expostas nos açougues. Raios de sol vazam pela cobertura de bambu de algumas vielas. Alguém grita: "Balak!" Isso significa "cuidado" em árabe, e é a maneira sutil com que os fassis (naturais de Fez) avisam que estão passando com seus jumentos carregados de coisas.

 

 

 

 

De repente, um cheiro insuportável invade minhas narinas. Mohammed me dá uma "máscara de gás" que na verdade são ramos de hortelã, colocados embaixo do nariz. Entramos na região dos tingidores de tecido. Subimos até o terraço de uma casa para apreciar, do alto, uma atividade que permanece praticamente a mesma há 700 anos. Peles de animais são penduradas nas paredes. Grandes tanques misturam as cores. Neles, homens preparam o amarelo (extraído do açafrão), o vermelho (da papoula), o azul (do índigo), o verde (da menta) e o preto (do antimônio). Um quadro parado no tempo há séculos.

As alcaçarias dão uma importante contribuição à economia da cidade. O curtimento é uma arte com tradições de milhares de anos. O processo transforma pele de animais em couro macio e que não apodrece. Uma vez curtidas, as peles passam para os artesãos que irão fabricar casacos, bolsas e muitos outros utensílios.

 

Em seguida, paramos numa loja de tapetes, um palacete de mármore de Carrara datado do século 14. O dono me convida a sentar e tomar um chá de menta. Dois sujeitos mostram os tapetes, à minha frente. São lindos, feitos por mulheres berberes que, diz ele, levam quatro meses para terminar o serviço. Aviso-lhe que não quero comprar nada. Mas não resisto e pergunto o preço de um deles.

 

"There is no fixed price in Morocco", responde o vendedor. Esse é o lema dos vendedores marroquinos.

 

 

 

Se estiver interessado em comprar qualquer coisa aqui, prepare-se para uma batalha sangrenta no mundo da barganha. Quarenta minutos depois, saio com um tapete berbere lindão, de cor azul. Se fiz um bom negócio? Mohammed jura que sim. No madraçal (escola religiosa) de Attarin, erguido em 1325, sofro um novo choque visual diante da beleza da carpintaria, dos azulejos decorativos, dispostos em padrões geométricos inacreditáveis, e da caligrafia cursiva, com versos do Corão em árabe escritos na parede.

 

Não é de hoje que Fez embala a fantasia dos brasileiros. Alguns anos atrás a novela “O Clone” emplacou no gosto dos telespectadores brasileiros. A trama se passava no Rio de Janeiro e em Fez. Personagens como tio Ali (Stênio Garcia), Jade (Giovanna Antonelli) e Mohammed (Antonio Calloni) estavam sempre entre Fez e o Rio de Janeiro. Me lembro bem da novela, era um dos telespectadores assíduos e posso afirmar que o Marrocos foi fotografado impecavelmente pelo diretor da novela Jayme Monjardim. Mas qualquer semelhança com a realidade é quase coincidência.

 

A geografia recebeu um trato para ser usada como pano de fundo. Lugares separados por horas de jornada, como a cidade de Ouarzazate, o mercado de camelos de Marrakesh e o Saara, foram parar magicamente às portas da medina de Fez. O vaivém das perosnagens da novela faz supor que exista uma ponte aérea entre o Rio de Janeiro e Fez. Por enquanto, e acho que por muito tempo ainda, o Marrocos continua no norte da África, a mais de 15 horas de viagem do Brasil, incluindo uma conexão na Europa, possivelmente em Madrid ou Lisboa. O fato é que a novela nunca se propôs a contar a história do povo marroquino ou fazer um documentário, mas sim a usar o país como ambientação para a trama que despertou a curiosidade dos brasileiros.

 

Em “O Clone”, as muçulmanas rebolam em trajes de odaliscas, lamentando seus destinos ditados pelos homens ou temendo as "80 chibatadas" e o "mármore do inferno". Embora marroquinas de carne e osso usem o hijab (o véu) nas ruas, grande parte da população feminina circula de jeans e segue uma carreira. A dança do ventre, executada por Jade à exaustão, não é um costume. Dançarinas se exibem para turistas em restaurantes, em shows folclóricos. A maioria, aliás, está a léguas do biotipo da atris brasileira Giovanna Antonelli. O que posso afirmar é que a novela não tem nada a ver com a realidade marroquina e é um retrato estereotipado desse povo.

 

Jade em "O Clone"