My dream is having all this map painted in red

Monday, 28 May 2007

Artigo sobre o Couchsurfing publicado na revista Época

Mochileiros da geração web
Como a internet modernizou o intercâmbio de jovens de diferentes países que buscam novos amigos e hospedagem de graça.

Pôr a mochila nas costas, cair no mundo, conhecer pessoas e se sentir livre. Esse tipo de aventura é, tradicionalmente, uma fase de muita diversão e de muito aprendizado na vida dos jovens. Informalmente, virou até verbo: "mochilar". Em tempos de Google, Wikipédia e Orkut, essa maneira de viajar mudou. Os mochileiros de hoje não dormem apenas em albergues ou nas pousadas identificadas como "bed & breakfasts". Eles agora têm uma nova opção de hospedagem: as casas de pessoas que conheceram em sites especializados. Cada site tem suas normas, mas o princípio é o mesmo. A inscrição é gratuita. Os jovens abrem as portas de casa para estranhos sem cobrar um centavo. Da mesma maneira, eles podem ser recebidos por pessoas que nunca viram na vida, em qualquer canto do planeta. Os três principais sites desse tipo - CouchSurfing, Hospitality Club e Global Free Loaders - reúnem mais de 1 milhão de membros. Do Brasil, são mais de 13 mil inscritos.

A idéia é passear pelo mundo sem gastar dinheiro com hospedagem. Mas as vantagens vão muito além da simples economia com pousadas. Por meio dos sites, jovens antenados, destemidos e curiosos fazem amigos e mergulham em outras culturas. Todas as redes surgiram com uma proposta de paz e troca de experiências. Esse clima continua, mesmo com o aumento desenfreado de adeptos nos últimos anos. O site Global Free Loaders, por exemplo, tinha 30 mil inscritos em 2002. Cinco anos depois, esse número é dez vezes maior. É fácil entender o fascínio que esse tipo de intercâmbio desperta. Quem não gosta de chegar a um país estranho e ser recebido por alguém que sabe quais são os melhores bares, restaurantes, centros culturais, pontos turísticos - e, de quebra, conhecer pessoas bacanas?

A publicitária paulistana Adriana Christovam, de 32 anos, está inscrita há nove meses no CouchSurfing (em português, "surfe no sofá"). Ela viajou nesse esquema para Vancouver, no Canadá, no fim do ano passado. Já recebeu oito pessoas em casa. "Deixei a chave na mão de cada uma delas. Nunca tive problemas. Só conheci gente maravilhosa", diz. Apesar do nome do site em que Adriana está inscrita, seus hóspedes não dormem na sala. Ela tem um quarto extra com duas camas reservado para os viajantes. Sua última acolhida foi a dos irmãos colombianos Fernando Lopez, de 21 anos, e Claudia, de 30. "Para mim, é incrível viajar nesse esquema. Estudo Antropologia e adoro entrar na vida das pessoas", diz Fernando. Adriana tem um lugar certo para levar seus hóspedes: a feira da Liberdade, bairro da colônia japonesa em São Paulo. Aos domingos, barracas de sushi e outras iguarias, como bolinho de feijão, espalham-se em torno da praça local. "Os estrangeiros adoram esse tipo de lugar", afirma.

Frédéric Brouder, analista financeiro canadense de 31 anos, é um dos campeões da hospedagem on-line. Ele já recebeu 159 pessoas em sua casa, em Paris, na França. "Mas esses sites não são para qualquer um. É preciso acreditar que há gente boa no mundo", afirma Brouder. Ele garante nunca ter tido problemas com seus visitantes. A pior situação que já passou foi esperar por pessoas que nunca apareceram. "Isso é o mais chato", diz. Para Brouder, abrir a porta de casa para amigos de internet é o mesmo que se abrir para o mundo. "Assim, deixo entrar as pessoas, as culturas, as novidades." Brouder conta como tenta se proteger de surpresas desagradáveis: "Leio sempre atentamente o perfil de quem requisita hospedagem. Assim, posso perceber se vou ter um momento bom com a pessoa ou não".

Caso não sintam confiança, as pessoas podem se negar a receber os candidatos a hóspedes. Algumas ferramentas de segurança protegem os inscritos nos sites. No CouchSurfing, por exemplo, conforme viajam e recebem pessoas, os mochileiros on-line vão sendo avaliados pelos colegas - pelos amigos em geral, por pessoas que já hospedaram em casa e por gente que os recebeu. Tudo com fotos e textos sobre as experiências. Existem até sistemas de pontuação que indicam se a pessoa é um bom hóspede e um bom anfitrião. Para os que são muito ocupados ou não têm espaço em casa, existe a opção "coffee & drink". Isso significa que a casa daquela pessoa não está disponível para hospedagem, mas que ela levará, de bom grado, os visitantes para passear.

Os relatos dos participantes são, de modo geral, bastante animadores. A estudante Bernadete Haris, uma neozelandesa de 28 anos, acaba de retornar de sua primeira viagem pelo Brasil, onde só se hospedou na casa dos amigos do Couch Surfing. "Amei. Os brasileiros são muito hospitaleiros e interessantes. Fiz amigos para a vida toda", afirma Bernadete. Dante Monson, um belga de 24 anos, viaja nesse sistema há cinco anos. Ele está inscrito no CouchSurfing, no Hospitality Club e no Global Free Loaders e resume as experiências como uma ótima oportunidade de desenvolver a capacidade de confiar nas pessoas e de fazer amigos. Ele já conheceu tantas pessoas em suas viagens que, muitas vezes, nem precisa recorrer a um desconhecido para conseguir hospedagem. A francesa Elsa Belhome, estudante de Literatura de 21 anos, já recebeu mais de 30 visitantes em casa. Ela diz que o intercâmbio com desconhecidos pelo CouchSurfing mudou seu comportamento. "Acredito que essas redes quebram barreiras culturais. Hoje, abro mais sorrisos para estranhos".
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