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Saturday, 25 October 2008

Veneza

Veneza

 

Veneza

 

Vai a Veneza? Prepare-se para viajar no tempo. Veneza não é uma cidade como as outras. Pertence à Itália, mas está até mesmo fora de seu território, abrigada numa laguna do Mar Adriático. Não foi feita para carros, nem para gente deste tempo, mas para heróis de dias em que navegar era preciso. Visitá-la é uma viagem diferente, fascinante, imperdível e fora dos padrões do turismo moderno. Aqui, é preciso ter sensibilidade para projetar-se no clima do século 15, quando a cidade já era do jeito que é hoje. Quem vem para cá não está só tirando alguns dias de férias, mas sobretudo viajando no tempo.
Em qualquer lugar do mundo seria uma simples fila de ônibus. Gente comum numa linha desordenada. O veículo desponta na curva ao longe, ainda há uma parada antes desse ponto, mas já as pessoas se agitam, um passinho à frente, O trânsito é tipicamente urbano, bons e maus motoristas que se xingam, os fortes em cima dos fracos. Tudo absolutamente normal, fosse o cenário uma cidade comum como São Paulo ou Nova York, fosse o caminho uma rua ou avenida, houvesse nas proximidades arranha-céus. Mas não é.
Aqui nada é comum ou plausível, a não ser o comportamento humano, esse parece não variar jamais, seja o dos transeuntes ou dos condutores. Aqui é Veneza, e portanto a avenida é um canal, o ônibus é uma embarcação e as cercanias são palácios estranhos que brotam da água como recifes estranhamente esculpidos com formas bizantinas. Aqui não há, com certeza, uma cidade normal e portanto é estranho descobrir gente vivendo normalmente numa vida cotidiana.

 

Veneza

 

Veneza


O mínimo que se poderia esperar dos venezianos é que tivessem guelras e escamas, já que há catorze séculos vivem na água, literalmente dentro do Mar Adriático. Mas o máximo que se vê, nos gestos hábeis do condutor do vaporetto que agora encosta no cais, é uma grande intimidade com os canais (ruas) sobre a qual manobra o equivalente veneziano de um ônibus-circular. A mesma que se percebe nos gondoleiros, nos pilotos das lanchas aquáticas que servem como táxis ou nas mammas que, à força do remo, empurram os botes que têm na porta de suas casas rumo às compras no mercado de Rialto.
Todo mundo aqui tem uma ligação obrigatória com a água. É uma relação delicada, amorosa e freqüentemente tensa, que se assemelha à de um casamento e por isso é comemorada anualmente numa cerimônia em que a cidade entrega uma aliança de ouro para as águas da laguna em que se situa. Repete-se, nessa data, a famosa frase proferida pelos antigos doges da cidade:
Desponsamus te mare, in signum veri perpetuique dominii. (Te desposamos, ó mar, em sinal de nosso perpétuo domínio.)
A declaração tem uma solenidade que combina com Veneza. É pretensiosa como os balcões mouriscos dos palazzi que margeiam o Canal Grande e imponente como as torres das centenas de igrejas que dão um aspecto místico a cidade.
Mas é falsa como uma nota de 3 euros. Veneza não tem perpétuo domínio sobre o mar, ao contrário, é dominada por ele. Resiste como pode, é verdade. Mas o mar corrói suas construções, invade suas praças e afugenta seus habitantes. Nos últimos quarenta anos, a população da cidade diminuiu para menos da metade segundo informações que li. Os que ficaram têm em média 46 anos de idade, seis a mais do que o resto dos italianos. Porque os jovens, principalmente eles, fizeram o caminho contrário ao percorrido por 12 milhões de visitantes a cada ano. Abandonaram o barco. Deixaram para trás o feitiço de uma cidade parada no tempo e foram buscar o futuro no continente.

 

Veneza

 

Veneza


Decadência? Posso te afirmar que não. Veneza desconhece esse vocábulo. O que ocorre por aqui é apenas uma readaptação de vocações. A grandeza da cidade foi conquistada por meio da navegação e do comércio. Veneza foi, por séculos, a porta do Oriente. Por ela chegaram ao Ocidente as especiarias, o café, o macarrão e a seda. Entreposto de riquezas, ela se transformou. Enfeitou-se com as mais belas obras de arte que foram dar no seu porto. Vestiu-se com as sedas mais delicadas e os veludos mais suaves. Perfumou-se com as essências mais exóticas e ornou-se com as pedras mais preciosas que trouxe de terras distantes. Guardou para si as mais valiosas relíquias. Selecionou e assimilou as mais belas influências bizantinas. Cuidou-se e maquiou-se como a senhora rica e vaidosa que, de fato, foi. Depois, parou, pela simples razão de que não havia mais espaço em suas 118 ilhas, alinhavadas por 150 canais e interligadas por mais de 400 pontes. Parou e ficou se exibindo, obra perfeita e cuidada que era. Isso no século 15. A América estava por ser descoberta e a cidade já tinha, fundamentalmente, a mesma aparência que tem hoje. Veneza tornou-se um afresco de seu tempo. Um anacronismo num mundo habituado a soterrar seu passado a cada geração.
Essa é, desde então, a vocação de Veneza. Exibir-se, como o grande museu ao ar livre que de fato se tornou. Não mais trazer e buscar riquezas, até porque isso hoje é tarefa de profissionais mais apressados e menos apaixonados do que foi, por exemplo, Marco Polo, o legendário explorador veneziano, que teria sido o primeiro ocidental a alcançar o Extremo Oriente numa épica viagem.
As pessoas que vão para Veneza atrás desse esplendor não se decepcionam, a menos que tenham a sensibilidade de uma coluna de concreto. É impossível, nesta cidade, encontrar um ângulo ruim. Você olha para a direita e dá com uma viela arrancada da Idade Média, olha para a esquerda e vê-se em pleno Renascimento ao lado de Bellini, olha para cima e vê o campanário de uma igreja secular, olha para trás e os raios de sol provoca reflexos dourados nas águas do Bacino di San Marco. Mas para se apaixonar pela cidade é preciso que você tenha um cromossomo em comum com Goethe, Mozart, Tiepolo, Thomas Mann, Wagner, Hemingway, Tintoretto, Verdi, Stravinsky ou qualquer outro dos gênios que, não por acaso, aqui buscaram inspiração para suas obras.
Caso contrário, você vai estar inclinado a focar as mazelas de uma cidade que, afinal, permanece parada no tempo tanto para o bem quanto para o mal. Isto significa, por exemplo, que você não vai gostar do mal cheiro que os canais exalam quando o calor aumenta.
Ora... Pois se a cidade não sofreu nenhuma mudança desde o século 15, é natural que seu sistema de saneamento não seja moderno como outra cidade Européia como por exemplo Lisboa. Em contrapartida, você também não iria encontrar em Lisboa, 450 palácios de valor artístico inegável como os que se vê em Veneza, encostados uns aos outros.
Vai muito, é claro, da reação do freguês, e por isso tantas vezes se vê debates acalorados entre visitantes que estiveram em Veneza e levaram consigo impressões conflitantes. Algumas pessoas incluindo a mim, por exemplo, ficam com a imagem da cidade gravada na alma pelo resto de seus dias. Neste time jogam, principalmente, aqueles que têm a capacidade de ver além do visível. Veneza se presta demais a esse exercício de retroceder no tempo, recriar cenários, reencontrar-se com eras de conquistas. Pode-se sentir, nos campiellos e calles (pracinhas e ruas) as beatas reverenciando a cabeça de Santo Estevão, o corpo de São Marcos ou o dedo com que São Tomé tocou as chagas de Cristo, relíquias que Veneza abriga nos seus templos incontáveis.
Mas os menos imaginosos se lembrarão, sobretudo, do incômodo de carregar as malas por centenas de metros até o albergue ou hotel (não há carros na cidade, lembra-se?), ou do próprio hostel, que, provavelmente terá algumas paredes mofadas, escadas estreitas e íngremes e banheiros menos confortáveis do que os de qualquer bed and breakfast noutras cidades Européias (não há prédios modernos, lembra-se também?).

 

Veneza

 

Veneza

 

Veneza


Eis por que, apesar de ser um dos mais espetaculares e visitados destinos turísticos da Terra, Veneza é também um programa seletivo, para pessoas com um perfil definido. Românticos de qualquer espécie são bem-vindos. A atmosfera da cidade é propícia para todo tipo de paixões e eis por que existem os gondoleiros que envergam as tradicionais camisas listradas e os chapéus de palha com fitas coloridas. Mas nem todos eles são tão legítimos assim, poucos realmente cantam. De toda forma, não há gondoleiros em nenhuma outra parte do mundo e se seu sonho é desfilar de gôndola pelos canais de Veneza, você simplesmente não tem alternativa e terá de pagar 80,00€ pelo passeio, eu particularmente sai de Veneza sem remorso algum por não ter andado de gondola.
Veneza, importante que se diga, é uma cidade difícil. Seus caminhos são labirínticos e se perder é fácil. Ela também é uma cidade cara, os venezianos que ficaram na cidade tentam sorver até a última moeda de sua carteira. Veneza é, enfim, um destino para se curtir mais com a alma do que com o corpo, mais com o coração do que com a cabeça.
É bom saber, de qualquer forma, que os venezianos são de uma cepa especialmente forte, gente que aprendeu com a História a conviver com situações adversas e por isso exibe uma altivez peculiar. Na verdade, eles se instalaram no mar por pura falta de alternativa. De origem diferente da dos romanos, o povo veneziano ocupa a região que hoje se chama Vêneto desde mil anos antes de Cristo.

 

Veneza

 

Veneza


No passado, Vêneto era continental, seu povo era mercador e suas principais cidades eram Verona, Aquiléia e Pádua. Suas terras iam do Adriático até as encostas alpinas, mas eram freqüentemente atacadas por godos e visigodos. Em 452 depois de Cristo, Átila, o rei dos hunos, promoveu um ataque nunca antes presenciado pelos vênetos e uma parte deles foi buscar refúgio na laguna de 55 quilômetros de extensão e 13 de largura protegida do Mar Adriático por uma ilha comprida hoje chamada Lido. Ali o mar era relativamente calmo e, no desespero da fuga, alguns cidadãos ergueram casas sobre palafitas. O primeiro núcleo urbano surgiu numa ilhota chamada Torcello. Vieram, em seguida, Murano, Burano e Veneza. Os fugitivos perceberam, então, que a laguna era rasa e começaram a plantar milhões de estacas sobre as cabeças-de-morro que mal emergiam das ondas. Em cima delas construíram suas casas.
Não se podia supor que ali estava nascendo uma cidade de verdade, mas ninguém se preocupou com o assunto até que ela existisse de fato e fosse responsável por uma tecnologia naval de que não se tinha conhecimento. Oficialmente, de acordo com os cálculos do matemático veneziano Sabellico, Veneza nasceu no dia 25 de março de 421. As contas não são lá muito exatas, mas coincidem, aproximadamente, com a queda do Império Romano, e dão uma certa lógica à história da península. De toda forma, a data foi considerada oficial e marca o nascimento de Veneza. Mais incrível do que o surgimento de Veneza, porém, é o fato de que ela deu certo, enriqueceu e alcançou um improvável apogeu na Idade Média, justificado apenas pela vocação navegadora de seu povo. O grande símbolo do apogeu de Veneza é o leão alado de San Marco. Instalado até hoje no alto de uma coluna na entrada da cidade, ele tinha réplicas espalhadas pelas principais cidades da região, que atestavam o orgulho do Império Veneziano pelo domínio que exercia sobre os mares e o comércio. Muita gente considera que o fato de o leão alado nunca ter sido destruído é uma prova da natureza amigável do povo veneziano, que mesmo no auge do seu poder não foi beligerante nem ameaçou, pela força, a existência de outros povos.

 

Piazza de San Marco

 

Piazza de San Marco

 

Piazza de San Marco


Pedaços dessa longa história estão em toda parte por aqui. E o melhor lugar para começar sua peregrinação ao passado é mesmo a manjadíssima, nem por isso menos impressionante, Piazza San Marco. Mesmo que você tenha de conquistar seu metro quadrado com a tenacidade de um Marco Polo, entre turistas e pombos, já que ambos abundam na praça, é fundamental pôr-se de frente para a basílica, construída no século 11, uma mistura única de influências do Ocidente e do Oriente. Erguida para consagrar a grandeza da República Veneziana, ela também guarda os restos de San Marco, ou a ressurreição dos restos, que teriam se incendiado no ano de 976 e reaparecido em 1094. A basílica é tão cheia de detalhes fascinantes que você pode investir o resto da sua vida ouvindo histórias e apreciando anjos e mosaicos. Mas se essa não for sua praia, você terá alternativas, como caminhar pelas arcadas, sentar nos bares, explorar o Palácio dos Doges, um delírio de arquitetura gótica e de superação humana.
Na Piazza, a única das centenas de praças de Veneza que se chama piazza, as outras têm o nome de piazzetta, campo e campiello, você precisa se lembrar de que, aqui nasceu o carnaval, aquela festa de mascarados e pagãos que transformamos em exibição do poderio dos bicheiros.
A partir daí, o roteiro é seu. Literalmente tudo que há em Veneza merece ser visto. Você pode optar em caminhar para a Ponte do Rialto, região onde os comerciantes se concentravam há mil anos e imigrantes africanos, continuam até hoje. Claro que você não vai deixar de ver a Ponte dos Suspiros, que não se chama assim por motivos românticos, mas porque era o caminho onde os presos condenados à morte deixavam seu último alento.

 

Veneza

 

Veneza


Em qualquer direção que se siga, enfim, seja no distrito de Castello, San Polo e Santa Croce, Dorsoduro, San Marco ou Cannaregio, você vai esbarrar com a mesma sensação de irrealidade, como se fosse de fato impossível existir, em qualquer época que fosse, uma cidade como esta.
Veneza encanta pela simples razão de existir. E a questão que se coloca hoje é se ela continuará existindo por muito tempo. O fenômeno chamado acqua alta, que equivale a uma grande inundação da cidade, tem-se repetido com freqüência cada vez maior. O solo de Veneza cedeu 23 centímetros em relação ao nível do mar neste século. Num único dia, 4 de novembro de 1966 , a água atingiu 1,94 metro sobre a cidade, explodindo todos os 432 transformadores elétricos e provocando a fuga de centenas de famílias. Aterros na laguna, para a construção dos horríveis pólos industriais e do polêmico Aeroporto Marco Polo, são alguns dos vilões dessa história.
Há projetos de salvação da cidade que nunca se viabilizam, porque custarão no mínimo 4 bilhões de dólares e o dinheiro que abundava na era das especiarias é artigo escasso na Itália de hoje. Os políticos discursam, os visitantes se acotovelam e Veneza vai ruindo. Apesar disso, o problema está longe de ser insolúvel. E se há alguém que tem interesse em salvar a cidade, esses são os poetas. Porque poetas vivem do incomum, do implausível e do mágico. E não há nenhuma outra cidade que ofereça esses ingredientes com a generosidade de Veneza.

 

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