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Sunday, 23 September 2007

Descobrindo Portugal mais de 500 anos depois

 

 

 

 

Histórias de português começam sempre do mesmo jeito. "Sabe aquela do Manuel?", coitado do Manuel. Sabe-se pouco sobre esse gajo. Acredita-se que não tem miolos, nem alma, apenas vastos bigodes e, em alguns casos, um par de tamancos nos pés e uma caneta esferográfica na orelha. É o Manuel da piada, do estereótipo, aquele personagem que o povo se encarregou de embutir na alma brasileira, o tal de que se conta uma piada diferente a cada dia e que, sempre ausente, coitado, nem pode se defender. Pois se tiver oportunidade de conhecer Portugal como eu estou tendo, será mais do que justo levar o Manuel contigo, até porque ninguém viaja sem levar os próprios preconceitos na bagagem.
Mesmo assim, fique tranquilo, porque vai ser bom para ambos. Para começar, tanto o Manuel quanto você falam a mesma língua. Ou pelo menos dizem que é a mesma. O melhor, você verá, é atravessar o oceano e topar com um povo que entende o que você diz, de cara, uma vantagem de Portugal sobre todos os destinos da Europa. Porém, o ruim, será perceber que apesar de ser exatamente o mesmo, o idioma também pode ser completamente diferente. Que quando você espirrar, alguém, educadamente, gritará: "Santinho!" (sim, isso é o equivalente ao nosso saúde!). Que se você quiser um chiclete, terá de pedir uma pastilha elástica. De toda forma, não se apavore, o Manuel estará junto com você para ajudar nessas traduções. Ou você e seus preconceitos acham que ele não saberá ajuda-lo?
Descobrir Portugal, mais de 500 anos depois de Cabral ter feito o inverso está sendo uma experiência fantástica para mim. Se em Londres ou Paris os castelos guardam memórias de fatos aparentemente distantes, aqui é possível reencontrar os reis, os navegadores e os escritores que frequentaram nossas salas de aula, ocuparam nossas prateleiras e dificultaram nossas vidas na escola. Luís de Camões, por exemplo. O autor de Os Lusíadas, divide com Vasco da Gama e Dom Afonso Henriques (o primeiro rei de Portugal) a veneração do povo português. Repare o orgulho estampado nas feições do Manuel sempre que topar com uma referência a Camões, que ouvi dizer é estátua ou praça em qualquer cidade do país.
A maior parte dos brasileiros que conheço e que já estiveram em Portugal num pacote turístico não conhece muito coisa daqui. Um city tour básico por Lisboa e um passeio pelos arredores. E só. As pessoas se satisfazem, mas não voltam lá muito entusiasmadas, porque acabam trazendo lembranças mais fortes de Paris ou Roma, que também costumam fazer parte dessas viagens que acho a maior besteira de qualquer brasileiro pode fazer como conhecer 10 cidades da Europa em 15 dias.
Pois saiba que fazer um roteiro desses é quase uma indignidade para com nossos descobridores. O Portugal que convido você para conhecer (na companhia do Manuel, naturalmente) não é uma relação de lugares onde se pode tirar uma foto, comprar um postal e escolher um souvenir. Muito pelo contrário, quem estiver realmente disposto a participar de uma expedição de descobrimento às avessas, tem que estar preparado para um desconcertante encontro com as origens.
Não importa se você não tenha sequer uma gota de sangue lusitano correndo nas veias. O fato é que, a despeito das piadas que costumamos contar e dos milhares de quilômetros de mar que nos afastam, estamos muito mais perto dos portugueses do que supõe. E também a surpreendente sensação de proximidade que acomete qualquer alma sensível num simples passeio pelas ruas de Portugal. São o pão quente de aroma familiar, as gaiolas penduradas nos alpendres, a senhora conversando com a vizinha da sacada de cima do sobrado, os pequenos armazéns suburbanos. São as mulheres na feira tagarelando sobre a mesma novela das oito que vemos no Brasil, as raparigas suspirando pelos galãs da Globo repetindo bordões conhecidos no Brasil, a mesma paixão pela bola.
São os alfacinhas (como são conhecidos os moradores de Lisboa) e os tripeiros (como são conhecidos os moradores do Porto) alimentando a mesma velha rixa inconseqüente que se vê na relação entre paulistas e cariocas. Está tudo aqui, despudoramente familiar, nas ladeiras de Lisboa. E esse é apenas o pano de fundo da viagem, o momento em que você vai perceber que o Manuel que o acompanha é muito mais a sua cara do que você gostaria de supor.
Portugal é, assim, numa definição grosseira, um Brasil mais velho, mais compacto e, para azar deles, menos miscigenado. Um dos mais antigos países da Europa, essa pequena nação, menor do que Santa Catarina, fica geograficamente distante das principais capitais européias. Essa condição e o isolamento, colocaram Portugal à margem dos grandes acontecimentos europeus do século 20 e deram origem a um certo complexo de inferioridade nacional que foi superado. Os novos portugueses já estão vivendo uma outra realidade. Basta passar quinze minutos no centro agitado de Lisboa, para ver uma multidão de executivos pilotando telefones celulares 3G de última geração. Há sintomas de prosperidade na rede de metrô da capital ou na revitalização de velhas docas, agora transformadas em redutos de música tecno, que alegram as madrugadas. A integração à União Européia, ocorrida anos atrás, trouxe um ar cosmopolita indiscutível a cidade. Os portugueses, enfim, parecem ter optado por uma mistura estranha entre a influência brasileira (quem diria?) e o formalismo europeu.
A incrivel formalidade é um bom motivo para você se perguntar até que ponto vão as semelhanças entre nossos descobridores e aquilo em que nos transformamos nesses 500 anos de coexistência.
Você descobrirá que as diferenças vão além do território lingüístico. Os portugueses, por exemplo, são notavelmente mais formais. Tratam-se por senhor em quase todas as circunstâncias e só se tateiam depois de estabelecer uma longa e confiável amizade. Essa cerimoniosidade fica evidente, também, na maneira como se vestem. O paletó e a gravata são itens de primeira necessidade para qualquer um que ambicione respeitabilidade. Há exceções, é evidente, mas, em regra geral, nossos colonizadores ainda conservam atitudes bem antiquadas.
Na próxima vez que vier a Europa, não faça como a maioria do brasileiros e retire Portugal do roteiro e claro não esqueça de trazer o Manuel para te ajudar a se livrar dos preconceitos que carrega na sua bagagem.
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