My dream is having all this map painted in red

Monday, 8 October 2007

Cidade do Porto, boa como vinho

 

 

 

 

Sexta-feira, 05 de outubro, 10:30hs da manhã, feriado em Portugal. Acabo de chegar na cidade do Porto, no norte do país, eu e minha inseparável mochila de viagem. Sai bem cedinho de Lisboa numa viagem de trem com paisagens e cidadezinhas lindissimas vistas pela janela, chego na estação de trens São Bento na cidade do Porto e peço por uma Coca Cola numa das lanchonetes. A moça no balcão, me olha e diz:
Coca Cola?!?! Não tomas um porto? Está claro que o porto em questão é o vinho. Fiquei meio sem palavras e o tom na voz dela parecia que eu estava cometendo o mais mortal dos pecados ao chegar aqui e pedir Coca Cola e depois de tal sugestão mudei de idéia e troquei a Coca pelo vinho.
A moça lava o cálice na água fresca, mas não o enxuga. Abre a garrafa, derrama aquele liquido vermelho escuro no cálice, levanta a taça, olha o vinho contra a luz, gira uma, duas, três vezes fazendo com que o perfume da uva se espalhe pelo ar e me faz entender a importancia do momento, meu primeiro gole de vinho na cidade do Porto.
Já me sentindo um tolo por chegar ao Porto e pedir uma Coca Cola, pego a taça e coloco um pouco daquele vinho na boca, seguro o liquido por alguns momentos na minha boca antes de beber e finalmente tenho a sensação de que encontrei o meu vinho predileto. Costumo dizer que tenho um paladar infantil pois odeio coisas amargas ou muito ácidas e o vinho do porto é aquele tipo de vinho levemente adocicado, licorizado e como costumam defini-lo aqui aveludado.
Tomando aquele cálice de vinho várias perguntas vieram a minha cabeça. Há quanto tempo essas frutas foram plantadas? Quanto sol, quanto frio elas ficaram expostas? Quem as colheu? Quem as pisou? Percebo que não havia melhor jeito de começar meu mochilão pela cidade do Porto, tive a certeza que o fim de semana me reservava belas descobertas e muitos goles de vinho nesta bela cidade do norte de Portugal.
Saindo da estação, agora é o Porto, a cidade, Patrimônio da Humanidade. As ruas estreitas, sombreadas pelos casarões de quatro, cinco e até seis andares, uns grudados nos outros, com as roupas secando nas janelas. Lá embaixo, o Rio Douro, que liga a cidade a alguns dos vinhedos mais especiais do mundo. Ligando as duas margens do rio, a visão clássica da ponte D. Luís I, com sua estrutura de ferro de dois andares, cartão postal da cidade. Na boca, o gosto doce da mais antiga cidade de Portugal.
É até dificil acreditar mas o Porto é ainda mais antigo que Portugal. Escavações deram conta da presença romana nestas margens do Rio Douro no século 2 antes de Cristo. Tudo indica que Olisipo (hoje Lisboa) surgiu depois.
Junto de Portus (hoje a cidade do Porto), que possuia um pequeno cais, ficava outro lugar, na outra margem do rio Douro chamado Cale (hoje Vila Nova de Gaia). Um dia, quando já não dava para saber onde começava uma e acabava outra, deram-lhe um só nome, Portucale, que depois virou Portugal e passou a denominar não somente aquela região mas todas as terras a oeste da Hispânia (Espanha) dando origem ao nome do país.
Claro, o Porto não é mais aquele pequeno cais, dos tempos medievais. O perfil hoje é de metrópole, um aglomerado de nove municipios somando quase 2 milhoes de habitantes com edifícios modernos, baladas concorridas, motocicletas zunindo e engarrafamentos. Mas esse Porto contemporâneo, que ampara o frenesi de jovens imigrantes, continua misturado áquele Porto das velhas senhoras de preto e dos vovôs de boinas poídas.
Como Lisboa, foram nas últimas três décadas que o Porto deu seu salto de modernização. Depois da Revolução dos Cravos, que em 1974 libertou Portugal da ditadura salazarista, e com a recente entrada do país na união européia, muita coisa mudou. Mas é exatamente por essas e outras que a região formada por Miragaia, Baixa e, principalmente, Ribeira, o centro histórico da cidade, está cada vez mais interessante e valorizado. Mesmo considerando as outras construções de época espalhadas pela cidade, esse núcleo virou uma espécie de Parque Jurássico, que não apenas resgata a História, mas a vive de maneira saborosa e continua.
Graças ao rio Douro, a cidade cheira a vinho. Foi descendo nas águas generosas desse rio que, durante muito tempo, o sumo das uvas alcançou a cidade para descansar e envelhercer. Curiosamente, é na vizinha Vila Nova de Gaia que fica ao alcance dos olhos na outra margem do Rio Douro e não no Porto que o tal vinho encontrou clima ideal para consagrar sua deliciosa mágica.
Quem começou com as vinhas na região do Douro foram os romanos, por volta do ano 100 antes de Cristo. Depois, ainda antes das eras das descobertas, os conventos mantiveram a tradição. Mas ninguém conhecia ainda a técnica para se obter aquele vinho generoso, com sua variedades licorosas e o marcante cheiro da fruta. O vinho da região, apesar de já bastante apreciado em Portugal ainda era seco, sem a natureza única que o faria famoso em todo o mundo, um vinho envelhecido, macio e aveludado.
A maravilha aconteceu quando, em meados de 1650, para garantir a qualidade da bebida em viagens marítimas cada vez mais longas, alguém resolveu acrescentar aguardente nas barricas, interrompendo o processo da fermentação. Os ingleses, que andavam as turras com os franceses por causa dos altos impostos dos vinhos de Bordeaux, passaram a investir pesado na produção do vinho do Porto, um digníssimo substituto dos vinhos franceses e hoje curiosamente a França é o maior importador dos vinhos do Porto.
No final do século 17 as exportações cresceram e a cidade do Porto passou a atrair não apenas ingleses, mas também holandeses e alemães. Ao longo do século 18, aquele vinho diferente já era o produto número 1 de Portugal. E a cidade que lhe emprestara o nome expandia-se vertiginosamente. Para completar, em 1756, o ministro Marquês de Pombal impôs severo controle sobre essa emergente produção, determinando inclusive as áreas de plantio das uvas. Sem saber, ele inaugurava o que hoje se conhece como "denominação de origem controlada", uma garantia sobre a procedência e qualidade de um dos melhores vinhos do mundo, pois somente o vinho produzido com uvas plantadas nessa área demarcada pode ser considerado vinho do Porto. Era o que faltava para consagrar a sublime bebida e também a cidade.
A história do Porto esteve sempre ligada ao comércio. Primeiro como rota estratégica dos romanos. Mais tarde, nas Cruzadas, forneceu provisões para os cavaleiros a caminho da Terra Santa. Na época dos descobrimentos voltou a crescer com o comércio de especiarias. Nos últimos séculos, foi o comércio de vinhos com a Inglaterra que fez prosperar a cidade. Hoje o Porto conta com muitas indústrias e com uma intensa atividade econômica e cultural.
Essa história embriagante do casamento do vinho do Porto com a cidade do Porto não esconde outros aspectos interessantes do dia a dia dos portuenses ou tripeiros (por causa do prato tradicional da cidade, as tripas do boi). Por exemplo, a forte paixão dos cidadãos pelo Futebol Clube do Porto, cujo brasão ilustra bandeiras e flâmulas, camisetas e camisolas, toalhas de banho, bonés, chaveiros, canetas e qualquer outra superfície assinalavel, os jogadores são conhecidos como os dragões bem como o estádio tem o popular nome de Estádio do Dragão. Para acirrar os exageros de tanta paixão, a cidade cultua uma deslavada rixa com Lisboa, a capital portuguesa, fazendo comentários maldosos e oferecendo aos alfacinhas (moradores de Lisboa) vaias e caretas. Nas palavras venenosas de um jovem antendente de padaria com quem conversei, para lá da ponte D. Luís I, é África. Lisboa, no entendimento desse geógrafo improvisado já é Marrocos. Como podem ver a rivalidade é grande, os portenhos dizem ainda que Lisboa nunca vai entender o que é o orgulho de ter dado o nome à nação.
A ponte D. Luís I de 1886 é o cartão posta da cidade. Projetada em dois niveis por Teófilo Seyrig, talentoso discípulo de Gustave Eiffel (aquele mesmo da torre parisiense), a ponte D. Luis I bate em fama e aparência suas companheiras de Douro.
Como é ela que dá acesso a Vila Nova de Gaia, o fluxo de gente por ali é contínuo e atravessa-la a pé é uma coisa que ninguém deve deixar de fazer se vier ao Porto, lá de cima, a vista da região da Ribeira com suas casas coloridas voltadas para o rio é algo que vai ficar gravado na minha memória para sempre. Sem falar na visão privilegiada e o colorido dos barcos rabelos que ainda mantêm alguns barris de vinho no convés, estes barcos eram do mesmo tipo que traziam vinho em barricas Douro abaixo para envelhecer no Porto.
A rigor, o rio Douro é até mais espanhol do que português, uma pequena parte de suas águas estão em terras portuguesas. Mas apesar dos mapas, é a Portugal que ele deve a sua fama.
Além do vinho e dos limites da cidade velha, o Porto tem largas avenidas, alamedas residenciais com edificios de alto luxo, praias margeadas por palmeiras (apesar da água ser muito fria) e sinais que indicam o ingresso de Portugal no clube do Primeiro Mundo da Europa.
Para orgulho dos portuenses em 2001 o Porto foi a Capital Européia da Cultura, ao lado de Roterdam, na Holanda. A iniciativa promove, ano a ano, uma ou mais cidades atraindo investimentos extras e, invariavelmente mais turistas. O Porto foi presenteado com a Casa da Música e um dos beneficios mais valiosos foi a renovação de alguns espaços do centro histórico. Essa renovação pode ser notada numa visita ao mausoléu da Igreja da Lapa que guarda o coração de D. Pedro I.
Como a cidade foi construída sobre pedras e me faz pensar quâo improvável que uvas tão abençoadas, que dão vinho assim tão delicado, tenham sido cultivadas em solo tão pedregoso, a Cidade do Porto jamais viu a terra tremer e, muito mais que sua rival Lisboa, devastada por um terremoto em 1755, pôde manter intocados os seus tesouros. Não são poucos, charmosas ruas medievais, mansões barrocas e igrejas cobertas de azulejo. Foram coisas assim, emolduradas por uma atmosfera nostálgica, que renderam ao Porto o título de Patrimônio da Humanidade em 1996.
É verdade que, por influência de ingleses que se estabeleceram na cidade há quase 300 anos, controlando o comércio do vinho do Porto, o portuense é uma espécie de português à milanesa, português por dentro e inglês por fora. Por dentro, uma alma temperada de aventuras marítimas. Por fora, um verniz aristocrático e eclético que inclui o tradicional chá da tarde (yes, yes, very british...), cafés em estilo art nouveau e livrarias imponentes. Pelo menos a culinária graças a Nossa Senhora de Fátima se manteve portuguesa, come-se muito bem no Porto, tirando isso dá para se pensar que a cidade é uma sucursal do Reino Unido.
Outra marca da cidade é a fusão do antigo com o moderno, bondes e carros de último tipo trafegam pelas ruas, shoppings contrastam com casas com fachadas em azuelejo, enquanto hotéis de grandes cadeias internacionais perfilam ao lado de antigas pensões com plaquinhas na porta.
Enfim, se vier a Portugal, uma visita a cidade do Porto é mais do que recomendada e lembre-se de nunca pedir Coca Cola numa lanchonete.
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