My dream is having all this map painted in red

Thursday, 26 June 2008

Vou mudar o mundo!

earth

 

Estava lendo a coluna do Fernando Alvim de hoje do jornal gratuito do Metro de Lisboa e gostei muito do seu texto, pelo menos me identifiquei bastante, como aquariano que sou e sempre querendo sair do habitual e sempre querendo mudar o mundo, o texto teve todos os elementos para me agradar e resolvi partilhar aqui no blog. Espero que também gostem do texto:

 

Hoje, depois de acordar e lavar o rosto, dei por mim com uma visceral vontade de mudar o mundo. Olhei para o espelho e de olhos arregalados disse: Vou mudar o mundo! E dito isto, comecei a correr por toda a casa, como se cada cômodo alguém me esperasse para ouvir esta mensagem. Já no meu quarto disse: “Vou mudar o mundo!”. Na cozinha o mesmo, no corredor, não sei porquê, mas não quis dizer nada. Mas chegado às escadas de acesso ao exterior ganhei novo fôlego e, já na rua, fui comunicando esta minha vontade a todo mundo. Vou mudar o mundo! E todos a quem eu dizia isto apontavam para mim, um dos seus braços estendidos, e riam-se como se eu tivesse acabado de contar uma piada das boas. As pessoas não acreditam em alguém que quer mudar o mundo e, se revelarem esta intenção, mais do que depressa serão confundidas com um qualquer louco, do que com alguém que está na posse de todas as suas faculdades mentais e determinado a fazê-lo: a mudar o mundo. E eu estou. Desde esta manhã, após ter lavado o rosto.

 

Contudo, há tanto a fazer que nem sei por onde começar, como naqueles dias em que é tal a quantidade de tarefas que temos planejadas que optamos por não fazer nenhuma. Não que não o queiramos, queremos sim, o que não sabemos é por onde começar. E é este o problema. Como se o mundo fosse um objeto muito grande, de difícil transporte, sem lugar para pôr as mãos. Diz-se: “Rapaziada"! Venham aqui ajudar-me a carregar o mundo que eu não consigo!” E é certinho que alguém diga: “Chefe, eu até ajudava, mas isto não tem lugar por onde se pegue! Olhe para isto! Não tem lugar para pôr as mãos… como quer que eu faça?” E, de fato, muitas das vezes nada há a fazer porque o mundo não se deixa agarrar, por não ter lugar onde pôr as mãos, por não ter, assumidamente, ponta por onde se lhe pegue.

 

E assim, impõe-se uma pergunta: há uma idade para mudar o mundo? Querem saber a resposta? Pois aqui vai: há, sim senhor! É precisamente a idade em que as pessoas usam repetidamente a expressão: “Eu não tenho idade para isso!” Oh tia! Podíamos construir uma casa ali! E já ela nos vai dizendo pondo as mãos à cabeça: “Eu não tenho idade para isso.” Pai, porque não vamos dar uma volta ao mundo para lhe tirar as medidas? E este diz: “Eu não tenho idade para isso, filho! E mesmo com as medidas do mundo, ninguém é capaz de lhe fazer um terninho novo.” E ainda assim, não desistindo, perguntamos: Vô, já viste aquela loira que vai ali? Aquilo é que é bom para ti, olha para aquelas pernas! Ao que ele nos responde com indisfarçável desencanto: “Eu não tenho idade para isso rapaz! Mas chega-me ai os óculos!” E assim, por saber que é para a minha, para a minha idade, eu vou atrás do mundo como se fosse atrás daquelas pernas altas, daquela saia justa, daquele corpo. Sabendo que é para a minha idade, eu vou atrás do mundo por saber bem por onde começar, por onde o agarrar, na certeza de que irei ter tempo para fazer tudo o que havia planejado. Na certeza de que o poderei mudar.

 

Fernando Alvim escreve no METRO às quintas-feiras e é diretor da revista “365”.

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