My dream is having all this map painted in red

Tuesday, 16 September 2008

Madrid, a cidade do pecado






Assim como as mulheres dos filmes de Pedro Almodóvar, Madri está sempre pronta para o pecado.  Aqui todo mundo come muito, bebe mais ainda e pára tudo no meio do dia para tirar uma soneca. Toda essa energia gulosamente acumulada é gasta com paixão nas noites, num sem-número de bares, nas tertúlias, nas arenas de touro, nos seios fartos das mulheres arfando para fora dos decotes. Uma cidade que tem orgulho de viver intensamente e sem a menor culpa. Madri peca com prazer.
Essa vocação para a doce vida começa na mesa, onde Madri fez fama. Não fosse por sua celebrada comida e os famosos museus do Prado e Reina Sofia, a cidade passaria quase despercebida dos roteiros turísticos num país que tem atrações como a arquitetura de Barcelona, as praias de Ibiza e o flamenco de Sevilha. Mas Madri acaba conquistando até quem está de passagem a caminho de outras bandas. Primeiro, ela pega pelo estômago, impossível ficar indiferente às paellas, carnes, cozidos e principalmente às tapas, petiscos deliciosos que podem ser lulas, anchovas, croquetes, tortillas e o maravilhoso jámon, o presunto cru, servidos em todo boteco.
Depois, Madri seduz pela beleza inesperada, edifícios medievais, belos monumentos históricos e prédios de diversas épocas, emoldurados por uma enorme quantidade de áreas verdes. Por fim, Madrid encanta por ser acessível, é barata para uma capital européia, o idioma facilita as coisas e a latinidade se incumbe de fazer a gente se sentir em casa.

Sim, fique à vontade. Você pode pecar também. Aqueles pecadinhos para os quais foram feitas as férias aqui fazem parte da rotina, comer quando (e principalmente quanto) quiser, dormir quando der na telha (a cidade pára de funcionar das 14 às 17h, quando os madrilenos estão fazendo a sesta), beber a noite inteira e curtir o momento como só os espanhóis sabem fazer. E gritar um olé depois de um pileque nos bares, onde hoje ferve uma garotada descolada que desconhece o que foram os anos chorosos do ditador Franco. Sossegue, não há a menor violência nas noitadas madrilenas. Se viajar para você é sinônimo de festejar a vida, Madri é o seu lugar. Cuidado apenas ao cobiçar a espanhola do próximo, ou você irá conhecer a ira dos madrilenos. Porque nesse pecado eles também são mestres.
A praça que é uma festa, uma passeada pela Plaza Mayor e você logo saberá que escolheu o destino certo. A praça, como a própria cidade, contém um pouco de tudo da Espanha. Cafés com mesinhas ao ar livre oferecem as copas (drinques) e as tapas que farão você esquecer se algum dia precisou de dieta. Lojinhas vendem regalos (suvenires, em espanhol) como chapéus, abanos (leques) e bonequinhas com roupas típicas. Tocadores de violão ensaiam um flamenco na mesa ao lado, num clima muito familiar para qualquer um de nós. Vendedores oferecem rosas e badulaques eletrônicos e rapidinho você estará papeando com os vizinhos, no idioma que escolher. Madrid está na moda, sua atmosfera fascina os estrangeiros. Todos os dias eles lotam a Praça Mayor, um cenário cercado por prédios do século 17 e 18, assinado pelo arquiteto Juan de Villanueva.

Isso é Madri. Como toda sedutora, Madri é orgulhosa. Os madrilenos se acham o máximo e a cidade transpira um vigor, uma virilidade de causar arrepios.  Parece que a qualquer momento eles vão estufar o peito, sacar as castanholas e sair sapateando. O que dizer de um lugar que tem como diversão as touradas e o flamenco?  Não há programas mais perfeitos para entender a soberba local. Sim, porque para encarar um touro de frente ou uma platéia de olho no seu sapateado é preciso acreditar.  Orgulhosos, por que não? Dizem que tanta altivez ajudou a afundar a soberania dos espanhóis, que nos tempos dos touros gordos foram donos de metade do planeta. Era o século 17, quando a simplicidade não dava o menor ibope. Para ilustrar com uma historinha, o rei de então, Felipe IV, mandou fazer um quarto real no Mosteiro de Los Jerônimos só para meditar e acabou construindo um palácio inteiro, mais um jardim real quase do tamanho do Central Park de Nova York. O dinheiro escorria pelos cantos nas brincadeiras desse povo que se achava invencível. E acabou vencido. O palácio desapareceu nas batalhas e da luxúria toda sobrou apenas o jardim, hoje o belo Parque do Retiro (o tal retiro espiritual que o rei buscava), para onde segue metade da população de Madrid todos os finais de semana. A outra metade viaja para as belas cidadezinhas dos arredores, como Toledo, Aranjuez ou Segóvia.

Moderna, pero no mucho. São cenas da Madri cosmopolita, da mistura de imigrantes e dos prédios modernos no Paseo de las Castellanas, a maioria deles projetados por arquitetos japoneses. É a Madri alternativa da Feira do Rastro, o mercado de pulgas que congrega os moços de brinco, as moças de cabelo verde e outros tantos que são, ao mesmo tempo, moços e moças. Das lojas da Ribera dos Curtidores, que mistura antiguidades com outras bossas, como piercings, tatuagens, roupas de todos os tons. É uma ousadia meio tímida, ainda. No que interessa para a gente, a cidade não mudou. Olhe ao redor. O pecado, esse continua no ar. Observe o figurino provocante das moças, o olhar cobiçoso da rapaziada às garotas mais curvilíneas, a vida noturna de Madrid que, é a mais animada e cheia de luxúria de toda a Europa. E na soberba, na gula, na preguiça, na ira, na inveja... dos outros, claro. Madrilenos não admitem invejar ninguém. Negam até a famosa rixa com o pessoal de Barcelona, aceita apenas nos gramados de futebol.
Celebre Madrid. Abra um vinho, de preferência, um espanhol da região de Rioja, uma das melhores produtoras do mundo, e escolha um bom restaurante para praticar o melhor pecado de Madri, a gula. Antes, tenha em mente que por estas bandas só se janta depois das 22h, porque os madrilenhos dormem à tarde, lembra-se? Depois, saia  flutuando pelos bares e danceterias, até terminar a noitada, e quando bater aquela culpa, bem,  derreta-se de prazer. Não é hora de sentir culpa. Madri não é o lugar. Mas, se ainda assim sua consciência pesar, igrejas para pedir perdão não faltam e são todas lindas.
Bem, se a culpa for apenas pelos quilinhos a mais, caminhe, Madri é plana, agradável, foi feita para passear. Ande pelos jardins do Campo del Moro, pelas arborizadas ruas da cidade e pela Plaza Oriente, a mais linda da cidade, onde ficam o luxuoso Palácio Real, onde viveram os reis até o começo deste século. E visite os museus. Madri tem dos melhores, como o Reina Sofia, onde está Guernica e mais tudo o que importa de Picasso, Miró e Dalí. E o mais famoso, o do Prado, com El Greco, Rubens, Velázquez e Goya, aquele que escandalizou a Espanha e o resto do globo com sua Maya Desnuda, um retrato da duquesa de Alba, sua amante.

Escândalo? É com Madri, mesmo. A cidade venera os deslizes da sua realeza. Juan Carlos, o rei, vira e mexe aparece posando de conquistador com jornalistas e visitas oficiais. O povo adora. Como adora a rainha Isabel II, do século 19, até hoje a predileta dos madrilenos porque sabia das coisas. Casou-se, por obrigações do cargo, com seu primo, um sujeito sem graça com nome de santo, Francisco de Assis. Diz a lenda que o esposo da rainha não tinha, digamos, a energia necessária para acompanhá-la. Bocas mais picantes asseguram que Francisco preferia os rapazes, tal qual Isabel, que naquela época já exercia seu feminismo escolhendo jovens amantes na platéia da ópera. Assim como as mulheres de Almodóvar, Isabel II, a favorita de Madrid, estava sempre pronta para o pecado.
Como não se deixar seduzir por uma cidade com uma história dessas?
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