My dream is having all this map painted in red

Saturday, 21 March 2009

Fez

 

 

Situada entre os terrenos férteis do Sais e as florestas do Médio Atlas, Fez é a mais antiga das cidades imperiais do Marrocos, vista de cima de um monte Fez é um tecido urbano compacto, encerrada por muralhas defensivas e um mar de telhados de onde emergem o maior número de antenas parabólicas que já vi até hoje. Fez é a concretização da história do país e a sua capital intelectual, espiritual e religiosa, tendo sido declarada Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO.

 

 

 

A cidade está dividida em duas partes Fez Jedid e Fez el-Bali. Fez Jedid sem muitos atrativos, é marcada pela presença do suntuoso palácio Dar El Makhzen. Fez Bali, por sua vez, concentra a maior e mais complexa medina do mundo árabe, um enorme labirinto de vielas apertadas e tortuosas.
Uma aventura irresistível, entrar na medina sem a companhia de um morador da cidade ou guia pode implicar em um mergulho claustrofóbico, sem tempo definido, num fluxo de comerciantes histéricos à busca de fregueses, gente apressada e jumentos com o lombo cheio de mercadorias. Definitivamente um assalto aos sentidos. Sozinho, pode-se passar um dia inteiro dentro da medina em busca de uma saída e recomendo totalmente que contratem um guia para fazer este tour, o que não é nada caro no Marrocos. Imperdível!

 

 

Meu guia, Mohammed, é um tipo gordo, de óculos, gesticulador e falante, um marroquino autêntico e que foi minha companhia pela medina. A medina de Fez é um labirinto de mais de 9 mil vielas e becos. Perto de 500 mil pessoas moram e trabalham ali. Há mais de mil mesquitas e 400 casas de homens santos, proibidas para não-muçulmanos, e uma infinidade de souks, como são chamados os mercados. Vende-se de tudo, roupas, móveis, tapetes, jóias, temperos, frutas, flores, rádios, discos, sanduíches de pâncreas recheados de grão-de-bico e pimenta. Cabeças de cabra ficam expostas nos açougues. Raios de sol vazam pela cobertura de bambu de algumas vielas. Alguém grita: "Balak!" Isso significa "cuidado" em árabe, e é a maneira sutil com que os fassis (naturais de Fez) avisam que estão passando com seus jumentos carregados de coisas.

 

 

 

 

De repente, um cheiro insuportável invade minhas narinas. Mohammed me dá uma "máscara de gás" que na verdade são ramos de hortelã, colocados embaixo do nariz. Entramos na região dos tingidores de tecido. Subimos até o terraço de uma casa para apreciar, do alto, uma atividade que permanece praticamente a mesma há 700 anos. Peles de animais são penduradas nas paredes. Grandes tanques misturam as cores. Neles, homens preparam o amarelo (extraído do açafrão), o vermelho (da papoula), o azul (do índigo), o verde (da menta) e o preto (do antimônio). Um quadro parado no tempo há séculos.

As alcaçarias dão uma importante contribuição à economia da cidade. O curtimento é uma arte com tradições de milhares de anos. O processo transforma pele de animais em couro macio e que não apodrece. Uma vez curtidas, as peles passam para os artesãos que irão fabricar casacos, bolsas e muitos outros utensílios.

 

Em seguida, paramos numa loja de tapetes, um palacete de mármore de Carrara datado do século 14. O dono me convida a sentar e tomar um chá de menta. Dois sujeitos mostram os tapetes, à minha frente. São lindos, feitos por mulheres berberes que, diz ele, levam quatro meses para terminar o serviço. Aviso-lhe que não quero comprar nada. Mas não resisto e pergunto o preço de um deles.

 

"There is no fixed price in Morocco", responde o vendedor. Esse é o lema dos vendedores marroquinos.

 

 

 

Se estiver interessado em comprar qualquer coisa aqui, prepare-se para uma batalha sangrenta no mundo da barganha. Quarenta minutos depois, saio com um tapete berbere lindão, de cor azul. Se fiz um bom negócio? Mohammed jura que sim. No madraçal (escola religiosa) de Attarin, erguido em 1325, sofro um novo choque visual diante da beleza da carpintaria, dos azulejos decorativos, dispostos em padrões geométricos inacreditáveis, e da caligrafia cursiva, com versos do Corão em árabe escritos na parede.

 

Não é de hoje que Fez embala a fantasia dos brasileiros. Alguns anos atrás a novela “O Clone” emplacou no gosto dos telespectadores brasileiros. A trama se passava no Rio de Janeiro e em Fez. Personagens como tio Ali (Stênio Garcia), Jade (Giovanna Antonelli) e Mohammed (Antonio Calloni) estavam sempre entre Fez e o Rio de Janeiro. Me lembro bem da novela, era um dos telespectadores assíduos e posso afirmar que o Marrocos foi fotografado impecavelmente pelo diretor da novela Jayme Monjardim. Mas qualquer semelhança com a realidade é quase coincidência.

 

A geografia recebeu um trato para ser usada como pano de fundo. Lugares separados por horas de jornada, como a cidade de Ouarzazate, o mercado de camelos de Marrakesh e o Saara, foram parar magicamente às portas da medina de Fez. O vaivém das perosnagens da novela faz supor que exista uma ponte aérea entre o Rio de Janeiro e Fez. Por enquanto, e acho que por muito tempo ainda, o Marrocos continua no norte da África, a mais de 15 horas de viagem do Brasil, incluindo uma conexão na Europa, possivelmente em Madrid ou Lisboa. O fato é que a novela nunca se propôs a contar a história do povo marroquino ou fazer um documentário, mas sim a usar o país como ambientação para a trama que despertou a curiosidade dos brasileiros.

 

Em “O Clone”, as muçulmanas rebolam em trajes de odaliscas, lamentando seus destinos ditados pelos homens ou temendo as "80 chibatadas" e o "mármore do inferno". Embora marroquinas de carne e osso usem o hijab (o véu) nas ruas, grande parte da população feminina circula de jeans e segue uma carreira. A dança do ventre, executada por Jade à exaustão, não é um costume. Dançarinas se exibem para turistas em restaurantes, em shows folclóricos. A maioria, aliás, está a léguas do biotipo da atris brasileira Giovanna Antonelli. O que posso afirmar é que a novela não tem nada a ver com a realidade marroquina e é um retrato estereotipado desse povo.

 

Jade em "O Clone"
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