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Tuesday, 12 May 2009

Viena – A cidade mais musical da Europa

Stdtpark

 

À primeira vista, o maior parque de Viena, o Stadtpark, não tem nada que o diferencie de qualquer outro parque do mundo. Lá estão as árvores, o verde, crianças brincando, lago com patinhos, casais namorando, o sol brilhando acima de tudo. Nem muito grande ele é, ainda mais se comparado aos frondosos contornos do Parque Ibirapuera, em São Paulo ou do Hyde Park, de Londres. Mas, na verdade, o que há lá dentro não tem paralelo, o espírito e os símbolos de uma das eras mais esplendorosas da arte e da cultura ocidentais, uma era que divagava com Freud e Wittgenstein, e depois relaxava com Mozart, Mahler, Strauss, Haydn, Schubert, Brahms e Beethoven.
No Stadtpark, depois que se passa o lago, há uma coluna de árvores que faz a curva à direita. Assim que a folhagem vai permitindo a visão, aparece à frente um monumento dourado, rodeado de flores coloridas. É a estátua de Johann Strauss, autor da valsa mais conhecida do mundo, o Danúbio Azul, um compositor que, apesar de embalar legiões de casais ao som de sua música, preferia ser devorado por tubarões do que ser obrigado a dançar. Prestando-se atenção, percebe-se que há música no ar, uma peça do próprio Strauss, você está perto de uma das doces surpresas de Viena. Mais alguns passos adiante e lá está a origem da música.
Debaixo do sol de fim de tarde e da brisa fresca, em um pequeno coreto, o maestro rege um quarteto de cordas, violinos, contrabaixo, o farfalhar das árvores como pano de fundo, sonatas de Mozart, valsas de Strauss, trechos de sinfonia de Mahler. Defronte do quarteto, cerca de 100 pessoas estão sentadas às mesas de um café, um dos milhares de cafés vienenses, que, mais do que estabelecimentos propícios para encontros, para ler jornais à la francesa ou tomar drinques, são uma instituição da cidade, eles são tantos que já se disse que Viena foi construída ao redor de seus cafés. As pessoas, turistas, vienenses, austríacos das cidades próximas, parecem em êxtase. Elas tomam algum dos quinze tipos de café do menu, saboreiam tortas esplêndidas, como a sachertorte (outro patrimônio nacional), e apreciam  o espetáculo. Sentando-se ali, a impressão que se tem é que Viena, seus palácios, balés, museus, cafés, parques e concertos parecem ter sido feitos para que a alma se delicie e a memória não se desfaça jamais do que os olhos viram e o corpo sentiu.

 

Parlamento Austríaco

 

Viena é a cidade mais musical da Europa, talvez do mundo. Até os deliciosos e crocantes pães, ao serem apertados, soam como instrumentos de percussão na terra em que Mozart e Strauss se apresentavam a platéias palacianas, nos tempos em que Viena era a capital de um império gigantesco, o austro-húngaro. O império não existe mais desde a Primeira Guerra Mundial, as bombas da Segunda ceifaram as inteligências mais cintilantes de então (a maioria de origem judaica) e também arrasaram com igrejas, a animação dos bailes, salas de concerto, e muitas outras coisas e edificações centenárias, mas a cidade ainda hoje, e cada vez mais, respira música, de todos os tipos.

 

Um sósia de Mozart

 

Que isto fique claro, não é porque Viena foi uma cidade imperial, com longa tradição em mesuras e pompas clássicas, que as engrenagens da cidade emperraram devido ao mofo. Do mesmo modo, nem se pense que as explosões da Segunda Guerra Levaram pelos ares a vitalidade e a energia. Atualmente, a vida exala e cresce como as flores dos parques. Os chapéus bicudos da época da corte só existem como chamariz para turistas na cabeça de Mozarts fantasiados que vendem ingressos para o show da noite. As perucas empoadas das cortesãs, por sua vez, foram substituídas pelos cabelos coloridos dos adolescentes e as medalhas de batalha, trocadas pelos piercings, numa mudança embalada por sons de todos os estilos e decibéis.
Para os românticos, cenários lindos e carruagens para apresentá-los. Mesmo coisas que são patrimônio da humanidade, como a Figaro Haus, a casa onde Mozart morava, e a Sala Terrena, onde tocava para os amigos, não são mantidas sob uma redoma. A casa está habitada e normalmente há concertos de violão e celo na Sala Terrena. Já seria bastante, mas nem de longe Viena se restringe a isso.

 

Michaelerplatz

 

Hofburg

 

A Casa de Ópera, cujas portas foram abertas em maio de 1869 para os acordes do Don Giovanni, de Mozart, ou dos 700 anos de arquitetura do Hofburg, o complexo palaciano em cujas salas a dinastia dos Habsburgo dava muitíssimo mais atenção e incentivo à cultura e à arte do que às necessidades do povo. Hoje, o mundo agradece, embora quem tenha vivido naquela época do lado de fora dos muros do palácio talvez preferisse mais pão e menos circo.

 

Ópera de Viena

 

Durante o dia em Viena estão os artistas que, como camelôs culturais, expõem a sua mercadoria artística nas calçadas. São trios de jazz, latinos que tocam flautas, violeiros espanhóis, poloneses que tocam acordeão, bumbo, pratos e gaita ao mesmo tempo, duplas que deslizam arcos em violoncelos e violinos. Isso sem contar os retratistas, desenhistas e pintores que disputam o ponto na entrada dos palácios e museus, ou mesmo o grupo de dança folclórica que interrompe o trânsito dos coches típicos. Ao cair da tarde, os artistas começam a se preparar para subir nos palcos e os turistas e vienenses consultam pilhas de roteiros, jornais e programações para descobrir o que está sendo encenado, tocado ou representado e em qual teatro, bar ou casa de concerto.

 

Belvedere

 

Por noite, há cerca de 200 espetáculos e shows em Viena. Podem ser óperas no Burgtheater, o mais prestigiado palco de língua germânica, ou sinfonias no Konzerthaus. Ou a ginga da world music, a pauleira do rock ou os improvisos de jazz em Schwedenplatz, uma concentração de bares e casas de música ao vivo que, durante o dia, não se dá um tostão por ela, mas que, à noite, faz a alegria do vivente. A região é tão animadinha que foi batizada pelos vienenses de Triângulo das Bermudas, devido ao grande número de pessoas que desapareceu de lá sem deixar traço para depois reaparecer em cama alienígena ao lado de companhia não identificada. Enquanto o som faz a trilha sonora para os flertes, o povo se esbalda com cafés (cremosos, com uísque, com coquetel de bebidas, fumegantes, frios, com sorvete), cafés de todos os tipos e jeitos, ou ainda com cerveja, tirada na hora, em garrafas, latas, canecas, tulipas, espumantes.

 

Belvedere

 

Não é nada difícil se comover ou ficar com ares sonhadores nos quase quarenta teatros e casas de ópera, mais de sessenta museus e os três palácios de Viena, ainda mais se você é do tipo que gosta de preencher espaços vazios com a imaginação. Para tanto, em um dentre vários exemplos, basta passear pelo corredores e salões do Schönnbrun, o palácio de verão da nobreza, idealizado para ser o maior no gênero no mundo com seus jardins empetecados, suas centenas de aposentos, sua mobília e dourados maravilhosos, pensado e edificado para ser ainda mais suntuoso e monumental que o Versailles. O dinheiro, no entanto, acabou antes que o palácio austríaco batesse o francês. Mas, mesmo sem o título de maior do mundo, foi de lá, principalmente, que a imperatriz Sissi e o imperador Francisco José conduziram os estertores do império.

 

Belvedere

 

Ainda hoje, se você conseguir abstrair as longas filas de turistas japoneses nos salões do Schönnbrun, é possível enxergar o espírito das damas vestidas com espartilhos e vestidos rodados sendo tiradas para valsar por cavalheiros, duques e barões vestidos em uniformes impecáveis, enquanto Strauss, em carne e osso, conduz os músicos da orquestra e os cavalos das carruagens relincham do lado de fora. Da mesma maneira, em alguns cafés mais tradicionais, como o Demel, o Central ou o Sarcher, no hotel de mesmo nome, que inventou a sarchertorte, uma legítima e divina dádiva culinária, é possível ver de relance o perfil de Freud e seu charuto cheio de significados e interpretações psicanalíticas discutindo com os pensadores do Círculo de Viena.
Dependendo da história de seus antepassados, também é possível, sem valer-se de recursos da imaginação ou de evocações do império, emocionar-se, para o bem ou para o mal, com o passado recente da cidade, que formou fileiras com os nazistas e foi bombardeada pelos aliados. Na saída da Stephansdon, a catedral mais bela da cidade, com imponência gótica e maravilhas renascentistas, há fotografias que mostram como a igreja foi arrasada pelas bombas. Para quem ama a arte acima de tudo, dá vontade de chorar ao ver destruídos o quase inacreditável telhado feito em mosaico, os púlpitos esculpidos em blocos gigantes de pedra, as relíquias de arte sacra, o órgão centenário contrastando com os soberbos vitrais, entre outras maravilhas que encantam até mesmo as pessoas que acham que igreja, por mais esplendorosa que seja, é sempre uma visita aborrecida. Para quem, por sua vez, ama a vida acima de tudo, ainda mais a vida dos seres que o nazismo levou, a destruição de uma catedral inestimável parece pouco perto do que os simpatizantes nazistas mereciam.

 

Belvedere

 

De qualquer forma, a guerra acabou há muito, assim como a era de ouro da música clássica. O que deu lugar a ambos é uma cidade onde se respira arte, música e tudo o mais que satisfaça as exigências dos bons vivants, como exposições e acervos espetaculares de quadros e esculturas, de todas as tendências e escolas. Come e bebe-se admiravelmente bem em Viena. seja a comida típica, que se parece com a alemã, seja a cozinha internacional. Seus doces e tortas, como as sonatas de Mozart, são obras de arte, com farinha e açúcar no lugar de bemóis e sustenidos. Encontra-se de tudo na cidade, embora, reconheça-se, com preços nem sempre muito em conta. Mesmo num dia comum como uma sexta-feira à tarde, a maioria dos vienenses parecem saídos de um desfile de moda, os homens com ternos impecavelmente bem cortados, as mulheres com modelos tão ou mais elegantes do que os parisienses.
Caso não se vivesse tão bem por lá, só a oportunidade de se sentar em um dos cafés e de estar cercado por mil anos de história e cultura, pelo que de melhor a tradição legou e a modernidade técnica aprimorou, já seria suficiente para reservar passagem para Viena. Os brasileiros, no entanto, preferem destinos mais famosos, como Paris, Londres, Nova York, Roma, Madrid, Lisboa e Amsterdã. Para muita gente, será uma surpresa saber que em Viena há um pouco de cada um deles. Viena tem os cafés parisienses, os shows e malucos de Londres, um lado moderno e vanguardeiro como o de Nova York, a tradição romana, a vocação para o vinho dos espanhóis, doces quase tão saborosos quanto os portugueses e as bicicletas de Amsterdã.

 

 

 

Além do mais, são poucas as cidades que sabem o que é estar incrustada num país com mil anos de história, espelhados em sua arte, costumes e arquitetura, Viena é uma cidade onde se deve andar olhando para cima, tamanha a quantidade de detalhes e estilos arquitetônicos dos prédios. No século 10, a dinastia dos Banberg domina a cidade e a transforma num importante centro comercial. A cereja no topo do sorvete continua lá na forma de museus e de todos os outros lugares que comportam arte de boa qualidade. O sorvete dos Habsburgos, porém, derreteu com o final da Primeira Guerra Mundial.
Mas não é preciso saber nada disso para apreciar Viena, embora seja fato consumado que os brasileiros sabem pouco da capital da Áustria, e até aí, tudo bem, os vienenses sabem menos ainda do Brasil. A cidade é pequena e compacta, dividida em distritos semelhantes aos arrondissements de Paris. Tem 2 milhões de habitantes, o que a torna um caso raro no mundo, uma das únicas capitais que tinha mais moradores em 1918 (2,6 milhões) do que hoje. Em dois dias, com um mapa na mão e disposição para andar, nem dá mais tempo para se perder. Você esbarra o tempo todo com os principais pontos de referência, como a catedral Stephansdon, a Casa de Ópera, a Prefeitura, e o Hofburg. Se não quiser guardar todos esses nomes, grave só dois que você se localiza bem, o parque Stadtpark e a praça Karlsplatz, onde fica a Karlskirche, outra importante igreja, no meio de um parque na saída do metrô. Em suas caminhadas, fique certo de uma coisa, Viena é uma das cidades mais seguras da Europa.

 

Karlskirche

 

Os vienenses são na verdade uma mistura de alemães com italianos. A primeira vista, têm aquela formalidade e distanciamento germânicos, aquele jeito algo robótico e milimetricamente calculado de fazer as coisas e de se relacionar. Depois que o gelo se quebra, de alemães só resta o gosto pela bebida e o temperamento propício às discussões acaloradas, mas com a afabilidade, o humor e malícia dos italianos. Este calor mediterrâneo, no entanto, só aparece, na maior parte do tempo, em eventos sociais. No dia-a-dia, a porção germânica fala mais alto, embora eles não se incomodem de interromper seus passos para dar explicações a um viajante.
De qualquer modo, aquilo que é claro e translúcido geralmente não requer explicações. E se há algo evidente em Viena é que, além da alma musical que abençoa a cidade, existe o espírito milenar de uma era magnífica que contagia pessoas, cafés, ruas, esquinas e parques.

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