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Saturday, 18 July 2009

Museu Ermitage

Fachada do Ermitage

 

O maior museu da Rússia tem um nome francês, Ermitage. Mas essa é apenas a primeira surpresa que todo mundo tem quando chega ao Ermitage, às portas do mais belo prédio, da mais bela cidade da Rússia, São Petersburgo. A segunda surpresa é descobrir que dentro dele estão não apenas algumas das mais valiosas coleções russas como, também, da própria história da arte no mundo. E a terceira surpresa é constatar que, embora infinitamente menos famoso que seus congêneres americanos e europeus, o Ermitage rivaliza com todos eles quando a questão é a riqueza de suas obras.

 

Interior do Museu Ermitage

 

Considerado um dos cinco mais valiosos museus do mundo, ao lado de templos sagrados como o Metropolitan de Nova York, o British Museum, de Londres, o Prado, de Madri, e o próprio Louvre, de Paris, o Ermitage impressiona justamente porque, nele, ao contrário de todos os outros, os visitantes menos avisados não esperariam encontrar grandes obras, além de uma ou outra peça de ouro da extinta família imperial russa. Neste caso, seria o próprio prédio, uma belíssima construção do século 18, a principal atração do museu, certo? Completamente errado.

 

Pintura exposta no Ermitage

 

O complexo de edifícios que dá forma ao Ermitage (são quatro prédios, um emendado no outro, a partir do antigo Palácio de inverno dos czares russos) é, de fato, espetacular, sem dúvida, uma das fachadas mais bonitas da Europa, e para completar a beleza fica às margens do Rio Neva. Mas daí a dizer que quem o viu por fora já conhece o que tem por dentro é o mesmo que se dar por satisfeito apenas em olhar a reprodução de um quadro e não a sua pintura original. O exemplo é adequado, até porque são justamente as pinturas famosas de artistas de renome a parte mais valiosa do rico acervo do Ermitage.

 

Pintura exposta no Ermitage

 

Tudo começou em 1764, quando o czar Pedro, O Grande, resolveu comprar um lote de 225 pinturas holandesas e belgas para sua nova residência de inverno em São Petersburgo, então sede do império Russo. Sua sucessora, Catarina, também conhecida como A Grande, se apegou à novidade e passou a comprar compulsivamente quadros por toda a Europa, ora arrematando todos os lotes de um único leilão, ora encomendando as próprias telas aos seus pintores favoritos.
Fazia isso muito mais por vaidade pessoal do que propriamente por amor à arte. De tal forma que só ela e seus convidados muito especiais tinham acesso às telas. Com isso, a residência oficial acabou se transformando numa espécie de museu particular, um impressionante acervo privado de grandes mestres, que a imperatriz se orgulhava de ter cativo só para si.

 

Interior do Museu Ermitage

 

Vem daí, aliás, o nome do próprio museu, "ermitage", em francês, como a nobreza russa preferia se expressar no século 18, significa retiro, exatamente como Catarina queria que fosse o seu palácio, ainda que ricamente decorado com telas fenomenais.
À tradição, juntou-se sua sucessora, Catarina II, que além de continuar comprando e encomendando telas, tratou de ampliar o palácio, agregando ao edifício original outros mais. O resultado é o atual Ermitage, um estupendo complexo de longos corredores e 353 salas, que já soma mais de 3 milhões de objetos raros.

 

Pintura exposta no Ermitage

 

Só os grandes mestres franceses ocupam nada menos que cinquenta salões decorados com pisos de mármore e muitos dourados. Nada mau para o que começou como uma mera decoração de casa de férias.
O acervo do museu só não é ainda maior por causa dos saques que ele sofreu ao longo de sua história. Em 1917, quando a Revolução Bolchevique depôs os czares, implantou o comunismo e levou a capital para Moscou, deixando São Petersburgo (que depois viraria Leningrado, antes de voltar a se chamar novamente São Petersburgo), praticamente todos os bens do museu foram confiscados e removidos para um depósito nos porões do Kremlin em Moscou. Nem todos, porém, retornaram. Anos depois, durante a Segunda Guerra Mundial, o museu foi novamente evacuado e boa parte de seu acervo estocado em vagões de trens, na tentativa de escapar ao cerco alemão.

 

Pintura exposta no Ermitage

 

Novamente, muita coisa se perdeu. Por fim, algumas obras foram simplesmente vendidas a preço de banana pelos antigos líderes comunistas. Uma dessas molezas foi a que conseguiu o ex-ministro das finanças dos Estados Unidos. Andrew Mellon, que, décadas atrás, por 7 milhões de dólares (uma pechincha) comprou de uma só vez 21 quadros do acervo do Ermitage. Dadas de presente ao governo americano, as telas hoje ilustram as paredes da Galeria Nacional de Arte, de Washington.
E este não foi o único caso de migração de peças artísticas do Ermitage para outros museus, embora no nem sempre lícito mercado de peças de arte o contrabando seja uma prática relativamente frequente. O próprio Ermitage já foi várias vezes acusado de dilapidar o acervo alheio em benefício do seu próprio. Em 1865, os italianos quase foram à briga com os russos por causa de um quadro, o Madonna e Criança, de Leonardo da Vinci, que suspeitamente migrou de Milão para os salões de São Petersburgo. Até hoje discute-se a quem, de fato pertencem as obras saqueadas em outros países pelos alemães durante a Guerra e deixadas na Rússia quando tudo terminou, se aos alemães, que as tomaram, ou aos russos, que delas se apropriaram.

 

Pintura exposta no Ermitage

 

Entre outras, são telas de Raphael, Van Dyck, Rembrandt, Picasso, Gauguin e Leonardo Da Vinci (o meu pintor favorito) e muito, muito mais, todas impressionantemente autênticas e, o que mais chama a atenção, ao alcance de dedos profanos. Não que seja permitido mexer, tocar, raspar as telas com as unhas. Não, claro que não. Zelosas senhoras, uma por sala, estão ali justamente para coibir os abusos. Mesmo assim, ao contrário dos outros grandes museus do mundo, o Ermitage permite uma aproximação maior dos visitantes com as obras expostas. Não há redomas de vidro, cordões de isolamento, essas coisas que tanto irritam quem quer ver os detalhes e, por causa da distância, só consegue ver o todo, e quando muito. Ali, não. Pode-se até mesmo fotografar as obras, já que o museu cobra uma taxa para quem quiser fotografar seu interior.

 

Pintura exposta no Ermitage

 

Por isso, como olhar não gasta, aproxime-se e olhe bastante. Veja as camadas de tinta, as microrrachaduras do tempo, as pinceladas, a textura, enfim. Depois, preste atenção às explicações do guia, porque se aventurar num museu tão interessante quanto este sem alguém para lhe contar os detalhes é perder metade da festa. Como o Ermitage é carente de textos explicativos (e a maioria dos que existem é em russo), só mesmo com um guia você ficará sabendo que, por exemplo, naquele simples banquinho de madeira está a origem da própria palavra "banco" (pois o seu inventor criou um fundo falso e nele guardava o dinheiro, sobre o qual se sentava). Ou então que, para definir o segredo de uma escultura sua, como o célebre "Menino Agachado", o mestre Michelangelo usava uma explicação brilhantemente simples, "Esculpir é fácil", dizia. "Basta pegar um bloco de pedra e ir jogando fora os excessos.

 

Hermitage

 

Como o Ermitage é também rico em histórias como essas, reserve um bom tempo para ele quando visitar São Petersburgo. Atrativos não vão faltar e seria um pecado ir a São Petersburgo e não visitar o Ermitage.

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