My dream is having all this map painted in red

Wednesday, 23 December 2009

A minha Paris

Torre Eiffel

 

Sempre única, sempre linda, esta capital da Europa se cuida e se renova para continuar sendo o berço de todas as tendências, o cenário de todos os romances e o argumento de todos os poetas.

 

 

Ao começar a tentar escrever um post com minhas percepções sobre Paris cai num dilema. Se você está prestes a escrever qualquer coisa sobre esta cidade saiba que Paris é, de longe, a capital mais escarafunchada por autores de todo o planeta, por meio de textos, fotos, ilustrações, filmes, quadros ou qualquer outra base de registro. Ou seja, pretender mostrá-la por um ângulo novo é uma presunção difícil de alcançar.

 

 

O que parece claro, porém, é que existem tantas Parises quantos seres que tiveram a sorte de visitá-la. Faça o seu próprio teste. Informe aos amigos que você está de partida para a capital da França e peça algumas dicas sobre a cidade. Provavelmente você vai receber diversas listas sem nenhum ponto de intersecção. Cada pessoa que já esteve por lá tem uma Paris diferente na cabeça. Um bairro preferido, uma relação de lugares imperdíveis que ninguém conhece, uma recomendação gastronômica, um endereço para comprar perfumes, um cantinho para ouvir velhas canções de Edith Piaf e assim por diante.

 

 

Por esta razão, o que se lerá, a seguir, é um perfil nada isento de uma cidade nada comum. Um relato onde se verá, uma Paris pessoal, minha, possivelmente pouco em comum com a dos outros. A começar pelos registros históricos. Embora os livros de História, as bibliotecas e as centenas de museus espalhados pelos dois lados do Rio Sena afirmem o contrário, a Paris que trago na cabeça não tem nada a ver com os parisii, que é como se chamavam os membros da tribo celta que se instalou na Île de la Cité por volta de três séculos antes de Cristo. Não resta dúvida de que foi em torno deles que se desenvolveu o vilarejo mais tarde invadido pelos romanos, batizado Lutécia e rebatizado Paris no ano 360 de nossa era.

 

Paris

 

Mas nem isso me convence de que estamos falando da mesma cidade. A que conheço, de livros e pensadores que tanto fizeram a cabeça do Ocidente num passado mais próximo, está mais para o olhar cheio de glamour das bailarinas de cabaré da belle époque do que para o furor guerreiro de reis e imperadores com nomes estranhos. Está mais para o delírio art nouveau de algumas de suas construções do que para a arquitetura tipicamente romana que ainda se vê nas ruínas das Termas de Cluny, no Quartier Latin, de valor histórico muito maior.

 

Gárgula - Notre Dame

 

É de uma clareza tão transparente quanto os espelhos d´água dos jardins de Luxemburgo que a Paris que realço deriva da Paris que prefiro ignorar. Não abdico do direito de fantasiar que Paris tenha sido descoberta, de fato, no século 19, avistada pela primeira vez por uma expedição de pintores impressionistas. Pourquoi pas?

 

 


Afinal foram Monet, Toulouse Lautrec e Degas, entre outros, os primeiros a levar os cavaletes para a rua e captar "ajoie de vivre" (alegria de viver) de Paris. Antes disso, a capital da França era apenas uma grande cidade européia, com algumas construções interessantes e milhares de miseráveis (lembram-se de Victor Hugo? e os "Les Miserables") nas ruelas estreitas e mal-cheirosas próximas ao Sena. Foi o autoproclamado imperador Napoleão III, sobrinho de Bonaparte, o responsável pela grande metamorfose de Paris, a partir de 1852.

 

Paris

 

Ele investiu seus quase vinte anos de poder na transformação de Paris em mais bela e imponente capital da Europa, nomeando o Barão Haussmann para redesenhar a cidade. Missão aliás executada com grande competência pelo austero aristocrata, que se cercou de grandes arquitetos para demolir vielas sujas e, sobre seus despojos, erguer os amplos bulevares e os espaços geometricamente ordenados que se vê na Paris de hoje.

 

Paris

 

Esses espaços, com fartura de horizontes incomum em grandes cidades, são itens primordiais de minha lista. Eles estão dos dois lados do Sena. A esquerda, onde fica o Champ de Mars, local de exposição mundial de 1889, da qual sobrou para a cidade a então controvertida Torre Eiffel. Com um pouco de imaginação pode-se ver o brasileiro Santos Dumont desafiando a gravidade num equipamento desajeitado e a multidão de parisienses a observar.

 

Torre Eiffel

 

Já na rive droite, todas as paisagens começam na Place de l´Étoile (Praça da Estrela), assim chamada porque dela saem doze avenidas formando uma espécie de núcleo da teia de ruas e bairros que se teceu ao redor. O eixo monumental da cidade. Aquele que começa no Louvre, passa pelas pirâmides na Place du Carousel, pelo pequeno e belo Arco do Carousel, cruza o obelisco egípcio da Place de la Concorde, sobe a Champs Elysées (que ainda mantém o título de avenida mais imponente da Terra), atinge o Arco do Triunfo e avança para noroeste até o impressionante Grande Arco de la Défense, sob cujo gigantesco vão poderia passar uma Notre Dame inteira.

 

Paris

 

Mas o melhor da Étoile é a deliciosa confusão que se observa quando carros vindos de doze direções diferentes se encontram, os motoristas xingando e bufando em busca de uma saída diferente, rumo a outros bairros da cidade. Solene, no meio da bagunça, o Arco do Triunfo é testemunha dessa confusão diária. O Arco, que foi prometido por Napoleão aos seus soldados depois da vitória na Batalha de Austerlitz, e que só ficou pronto em 1836, já teve dias mais gloriosos, durante os desfiles das tropas que venceram as duas guerras mundiais. Mas também já testemunhou a euforia de invasores, como Hitler, que, entre setembro de 1941 e agosto de 1944, ocupou a cidade, num episódio do qual os franceses não gostam de falar, visto que não é fácil distinguir, até hoje, quem resistiu e quem colaborou com o Exército nazista.

 

Louvre

 

Voltando à Haussmann, agora merecido nome de um bulevar, seu projeto deu viabilidade à estrutura da cidade, baseada em vinte arrondissements (bairros), até hoje com administração independente, sob a supervisão de um prefeito geral. Eles formam uma espécie de círculo, facilmente identificável num mapa, mas dificilmente compreensível para quem não viva por lá. Ao contrário de outras grandes capitais Européias, onde ninguém fica desorientado, Paris é um ótimo lugar para você se perder. As diagonais afastam-se do eixo assustadoramente. E, apesar da clara vocação para a simetria que se percebe nas construções e nos jardins, do ponto de vista urbanístico, a cidade é um grande quebra-cabeças. Eis por que o melhor é sempre ter um mapa ao alcance da mão e uma clara noção do que se quer fazer.

 

La Défense

 


Outra informação indispensável sobre os arrondissements é que sua numeração segue uma espécie de cronologia histórica. Assim, o primeiro é onde fica a Île de la Cité, avançando pelo Louvre e o Jardim das Tulherias, todos partes da história distante da cidade. O segundo é o prolongamento do primeiro na mesma direção que os antepassados um dia escolheram para expandir o núcleo inicial de ocupação. E assim por diante, até o vigésimo, sendo que os de numeração mais alta foram, um dia, povoados afastados, muitos dos quais ainda conservam um certo ar provinciano, o que não deixa de lhes conferir um charme especial.

 

Arco do Triunfo

 


A área completa de Paris tem 1.200 quilômetros quadrados, onde dormem mais de 2 milhões de pessoas. Durante o dia, porém, outros 10 milhões de moradores da região circunvizinha, chamada Île de France, invadem a capital para ocupar seus postos de trabalho. E essa movimentação só ocorre com certa ordem porque o metrô de Paris é um dos melhores do mundo, com 200 quilômetros de trilhos subterrâneos, 14 linhas e 370 estações, muitas delas tão emaranhadamente interligadas que formam verdadeiras cidades underground. Isso sem contar as composições do RER, linhas mais longas de trens de subúrbio, que na prática invadem a cidade e conectam-se às outras estações, funcionando exatamente como o metrô.

 

 

De toda maneira, se você quer fazer um roteiro para capturar o espírito de Paris, o melhor é andar a pé. Use o metrô para trocar de arrondissement, mas explore cada um deles com o vagar adequado que só as caminhadas proporcionam. É o melhor jeito de descobrir que, além de ícones de identificação imediata, como a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo, a Notre Dame e o Louvre, só para citar alguns, Paris tem uma alma que nem as mais poderosas lentes das máquinas fotográficas conseguem captar.

 

Louvre

 

Um charme surpreendentemente discreto numa cidade com vocação exibicionista. São pequenos detalhes nas ruas, calçadas, janelas, portas e telhados onde você pode se encantar permanentemente. Seja com a vitrine de uma confeitaria, onde há sempre um desfile de tortas e doces bem ornados, seja com o detalhe de uma fachada neoclássica ou com a bicicleta amarrada a um poste na porta de um bistrô. Tudo aqui foi feito para ser visto, não apenas usado.

 

 

Os parisienses usam trajes elegantes, como se tivessem despencado de uma passarela para as calçadas bem pavimentadas da cidade. Os cafés, com suas cadeiras sempre de frente para a rua, são como vitrines de gente. A diferença é que os itens do mostruário não estão ali apenas para serem vistos, mas também para verem, de modo que, mesmo tomando um capuccino ou comendo um croissant, o cidadão não perde nada do que acontece na cidade.

 

Louvre

 

A essa altura você já sabe que o parisiense é elegante e exibido. Mas certamente já ouviu falar, também, que ele é muito antipático, sobretudo com os turistas. Eis uma afirmação falsa na minha opinião, e mesmo que fosse verdade só o forte carisma desta cidade já justificaria que os mais de 20 milhões de turistas voltem a visitá-la ano após ano. Talvez a antipatia com os franceses tenha relação com o Savoir-faire, que significa, literalmente, saber fazer. E os parisienses de fato sabem como se vestir, como andar, como comer, como escolher o vinho ou em que ponto cortar o queijo. O problema é apenas que agem como se ninguém mais soubesse.

 

 

Mas esqueça isso e tente reviver o período do apogeu da cidade, os anos dourados em que Paris foi a capital de todas as idéias, a meca de todos os exilados, o argumento de todos os escritores e o cenário de todos os artistas. Você provavelmente só conheceu o mundo sob a dominação dos norte-americanos, mas em Paris certamente reencontrará a vocação francesa para ditar regras e estabelecer tendências. Nos seios rigorosamente perfeitos e iguais, como se forjados por um mesmo molde, das dançarinas do Moulin Rouge, numa época em que pernas à mostra revolucionavam os costumes.

 

Moulin Rouge

 

Esse é o grand-monde de Paris, hoje menos pluralista, menos influente, mas ainda magnético que reforçam-me a tese de que Paris vai lutar até o fim para continuar sendo o nascedouro das tendências do Ocidente, ainda mais sendo Paris uma cidade com vocação etílica, onde o vinho é sempre bom e barato.

 

 

Entretanto, comer em Paris é, enfim, um delírio e, nesse ponto em particular, os franceses mantêm-se vários corpos à frente do resto dos seres civilizados. A culinária francesa só encontra rivais, em prestígio, no ramo da perfumaria. Falando em perfumes, há milhares de aromas engarrafados por lá mas nenhum deles é tão irresistível quanto o aroma de Paris.

Post a Comment