My dream is having all this map painted in red

Monday, 20 December 2010

Roma – Uma cidade apaixonante

Assim que cheguei no meu hostel fui atendido por Lucca, um jovem italiano na casa dos 28 anos, ele era o propietário do hostel, fui me apresentar em inglês e dizer que tinha uma reserva mas o Lucca não me deixou terminar, simpático e tagarela, foi logo falando comigo num português com forte sotaque paulistano, dizendo que já estavam a espera do brasileiro. Fiquei surpreso, o Lucca era um cara genial, muito bem humorado assim como todos os italianos, me explicou mais tarde que o português era devido as visitas que havia feito ao seu avô que mora em São Paulo e sua paixão pelo Brasil.

Deixei a minha mochila no meu quarto e tratei de descer para dar uma volta e explorar a cidade e coincidiu com a saída do tal Lucca que mesmo me conhecendo a poucos minutos me ofereceu uma carona para o centro de Roma já que ia naquela dieração, ele conduzia o carro e a conversa em alta velocidade, emendando um assunto no outro como se fôssemos velhos conhecidos. Ao cabo de uma hora desse incansável, e divertido, monólogo, numa viagem com direito a algumas conversões proibidas, duas travessias no sinal vermelho e uma freada brusca para comprar jornal de um vendedor ambulante, chegamos ao destino.

Foi então que percebi que essas infrações de trânsito eram algo tipicamente romano, conforme o mesmo Lucca me explicou, uma espécie de boas-vindas, como se ele dissesse, relaxe, meu caro, você está em Roma, uma das cidades mais bonitas e apaixonantes do mundo. Uma cidade, aliás, com 2700 anos de história e que história, mas que nem por isso pode ser resumida à sua imensa coleção de monumentos e ruínas, por mais impressionantes que sejam essas relíquias. Além de ser um extraordinário museu a céu aberto, o maior que se pode encontrar, Roma é, principalmente, um lugar animado e romântico. Suas praças e fontes, desenhadas pelos melhores artistas do Renascimento, estão sempre tomadas por casais apaixonados, lembrando que a vida é bela, e que seria uma enorme perda de tempo deixar-se levar, aqui, por pequenos sustos no trânsito ou motoqueiros folgados que invadem a faixa de pedestres debaixo do nariz dos guardas.

Aproveitar o tempo nesta cidade de 3 milhões de habitantes, tão cheia de atrações e de História, é um belo desafio ao visitante de Roma. É bom saber, logo de cara, que você não vai conseguir, por mais que se esforce, visitar um décimo dos monumentos e obras de arte locais considerados "obrigatórios" pelos guias de viagem. Por isso, não se sinta culpado se ouvir, na volta para casa, aquelas tradicionais observações venenosas dos despeitados, tentando diminuir a sua viagem só porque você não esteve no Museu Nacional Etrusco, não admirou a escultura Êxtase de Santa Teresa na Igreja de Santa Maria della Vittoria ("o melhor trabalho de Bernini", dirão) ou, mais imperdoável ainda, não recebeu a bênção do papa no Vaticano. Admita, modestamente, que a cidade que foi sede do maior império do Ocidente, viu o cristianismo nascer e ensinou ao mundo noções de direito e política que vigoram até hoje não pode caber em uma semana ou duas de férias. E contente-se em degustar a melhor fatia que puder.

Com um sistema de transporte deficiente, o metrô não consegue avançar por causa da proteção aos sítios arqueológicos, mas com as principais atrações concentradas numa área relativamente pequena, Roma é perfeita para quem gosta de caminhar. Você vai precisar de boas pernas não só para subir ao domo da Basílica de São Pedro ou percorrer os labirintos do Coliseu, mas também para passear pela cidade, de uma praça a outra, ou para voltar a pé do bairro boêmio do Trastevere até o hotel, porque você vai descobrir logo na primeira noite que encontrar um táxi livre em horários de pico nesta cidade beira o impossível. Antes de botar o pé na estrada, porém, observe bem o (louco) trânsito local para não ser surpreendido.

O melhor é fazer como os romanos, não levar a sinalização tão a sério. Lá, as placas de trânsito não têm o peso de uma ordem, mas apenas o de uma sugestão, uma referência. É como se o sinal de contramão significasse "é recomendável não circular nessa direção" em vez de "é proibido". Por isso, além de conferir o semáforo ao atravessar uma avenida, calcule sempre a sua possibilidade de escapar ao ataque traiçoeiro de um carro ou de uma moto. A presença dos guardas não conta muito, a prefeitura já entregou os pontos, até porque o índice de acidentes nas ruas é misteriosamente baixo. Na falta de uma explicação melhor, os romanos preferem acreditar que isso se deve à proteção de Santa Francesca Romana, a padroeira dos motoristas.

Seja como for, aproveite o fato de estar numa cidade plana, pontilhada apenas por elevações suaves, as famosas sete colinas romanas, todas na margem esquerda do Rio Tibre, para passear bastante a pé. Os principais monumentos da Roma antiga, como o Fórum Romano, o Coliseu, o Palatino, o Circo Massimo e os vários arcos triunfais em homenagem às grandes conquistas dos imperadores estão bem perto uns dos outros e podem ser percorridos em uma hora e meia de caminhada. Mas, como você não veio a Roma para fazer maratona, isso só tem sentido se quiser fazer um reconhecimento do terreno para voltar mais tarde. Reserve pelo menos duas manhãs ou duas tardes para visitar esses lugares carregados de história.

O Fórum Romano, centro político e comercial da antiga capital do império, é um impressionante conjunto de ruínas de templos construídos desde os tempos de Júlio César, no ano 46 antes de Cristo. Abandonado durante muito tempo na Idade Média, o Arco de Sétimo Severo, parcialmente soterrado, chegou a abrigar uma barbearia, o lugar começou a ser recuperado no século 18 e as escavações continuam até hoje, em busca de novas pecinhas para esse gigantesco quebra cabeças arqueológico que é a velha Roma. Muitas dessas peças, pedaços de pedra usados nos monumentos, estão espalhadas por toda a área e servem de banco para turistas e estudantes dos colégios romanos que têm o privilégio de aprender sobre episódios históricos no local onde eles aconteceram.

Nada, porém, se compara à imponência do Coliseu, o maior anfiteatro da antigüidade, cujo esqueleto ainda está quase todo de pé, apesar de todas as depredações sofridas ao longo dos séculos. Como a pilhagem de monumentos antigos para a construção de novos eram uma prática comum em Roma, boa parte do mármore do Coliseu foi parar na Basílica de São Pedro, no Vaticano. O que restou, porém, é mais que suficiente para se ter idéia da perfeição do projeto arquitetônico dessa arena em que gladiadores lutavam pela vida diante de mais de 50 mil pessoas. Do tamanho de um estádio médio de futebol, como o do Pacaembu, em São Paulo, o Coliseu dá uma lição de engenhosidade e simplicidade com seus 80 portões em arcos para a entrada dos espectadores e os amplos corredores internos que garantiam acesso às arquibancadas em menos de dez minutos. Na sua inauguração, no ano 80 d.C., o imperador Tito decretou cem dias ininterruptos de festa, durante os quais mais de 5 mil feras foram abatidas. Hoje, quem faz a festa por aqui são os vendedores ambulantes e os saltimbancos que se vestem de gladiadores para tirar fotos com os turistas.

No Palatino, que fica bem ao lado do Fórum, estão os resquícios da Roma mais antiga, onde, segundo a lenda, Rômulo e Remo foram criados por uma loba e fundaram a cidade em 2 de abril de 753 a.C., a precisão da data é uma licença do historiador clássico Tito Lívio. Sinais de cabanas datadas do século 9 a.C., encontrados no local, dão apoio a essa lenda. As ruínas mais preservadas do Palatino, porém, são de casas mais recentes, da época do império, inclusive a do imperador Augusto, que recusou as mordomias do cargo e preferiu continuar morando lá quando subiu ao poder. Já no vizinho Circo Massimo, aquele exuberante estádio para corrida de bigas reproduzido no filme Ben-Hur, capaz de acomodar até 250 mil pessoas, quase o dobro da capacidade do Maracanã, só restou o gramado. Desativado no século 6 por pressão da Igreja, àquela altura já dando as ordens em Roma e empenhada em substituir os monumentos pagãos pelos cristãos, o Circo Massimo foi completamente saqueado. O imenso espaço vazio deixado no meio da cidade, porém, instiga a imaginação.

Para digerir tanta informação histórica sem se cansar, o melhor segredo é intercalar as visitas aos monumentos com passeios pelas praças e fontes romanas sem esquecer, naturalmente, das expedições às tratorias, cafés e sorveterias. Nenhuma cidade do mundo tem praças e fontes tão espetaculares quanto Roma, que deve isso ao maciço investimento feito pela Igreja Católica, nos séculos 16 e 17, preocupada em evitar a fuga de fiéis rumo ao nascente protestantismo. Graças a essa disputa religiosa, a cidade ganhou novas igrejas e multiplicou o acervo artístico que hoje abarrota seus templos, praças e museus. Nas praças romanas, o artista que deixou mais obras foi Gian Lorenzo Bernini, o mesmo que desenhou as colunas que circundam a Praça de São Pedro, no Vaticano, e projetou o baldaquino da basílica, aquela magnífica cúpula de bronze que se ergue a 20 metros de altura do altar papal.

Só na Piazza Navona, uma das maiores de Roma, há fontes barrocas de Bernini, uma mais bonita que a outra, a dei Fiumi, a de Netuno e a de El Moro, jorrando nas extremidades e no centro desse espaço em forma de elipse, onde havia corridas de bigas nos tempos do imperador Domiciano. Rodeada por cafés e tomada por pintores e caricaturistas que expõem seus trabalhos ao público, a praça é um desses lugares irresistíveis da cidade, especialmente nos dias de sol. Se passar por aqui e tiver vontade de cancelar o programa que iria fazer depois, relaxe, isso acontece com quase todo mundo. Ver a tarde cair devagar na Navona, acompanhado de um capuccino, um bom vinho ou uma taça de sorvete, vai aquecer sua alma de viajante e recuperar suas pernas. É tão indicado, que você pode perfeitamente devolver àquele amigo chato, o mesmo que questionou o seu roteiro em Roma, uma expressão de espanto ao saber que ele passou por aqui apressado, ou nem passou, tão preocupado estava em ver mais um museu.

Mais romântica ainda é a Piazza di Spagna, enfeitada por outra fonte de Bernini, só não se sabe ao certo se ela foi projetada por Lorenzo ou por seu pai, Pietro. A escadaria de 136 degraus que sobe da praça até a Igreja Trinità dei Monti é um disputado ponto de repouso para os caminhantes, formando um painel humano que põe em destaque a grande proporção de casais que procuram o lugar.

Os mais jovens passam horas aqui, descendo de tempos em tempos para matar a sede no jorro que cai sobre a escultura em forma de navio, na maioria das fontes romanas a água é potável. Conforme o calor, que costuma chegar ao auge em agosto, alguns aproveitam para refrescar o corpo, sob o olhar desaprovador dos carabinieri, os guardas municipais. Já os casais mais maduros e os mais dispostos a gastar costumam ser os principais clientes dos charreteiros da Piazza di Spagna, bem como dos elegantes cafés e lojas de grife.

Outra atração bastante concorrida nas imediações da Piazza di Spagna é o comérccio sofisticado que se concentra nas vias Condotti, Borgognona e Frattina, no lado oposto ao da escadaria. Vale a pena dar uma espiada nas vitrines, que expõem a vanguarda da moda mundial, principalmente se você passar por aqui durante o Natal. Com dinheiro no bolso, você corre o risco de encontrar um traje completo de Valentino (terno, camisa e sapatos) por cerca de mil euros, por exemplo.

A multidão que se aglomera ao redor da Fontana di Trevi, a fonte mais badalada de Roma, também pode ser encontrada em qualquer mês do ano, graças a uma tradição irresistível: a crença em que todo visitante que jogar uma moeda na água acaba voltando à cidade. Excursões inteiras participam desse ritual, que rende um bom dinheiro à prefeitura e alguns trocados a inusitados pescadores urbanos, que, longe das vistas dos fiscais, lançam varas com ímãs para recolher moedas. Um dos símbolos mais populares de Roma, a Fontana di Trevi foi celebrizada no cinema, principalmente no filme A Doce Vida, de Fellini.

Numa cidade com um patrimônio histórico e artístico tão grande, é inevitável estar sempre fechando algumas atrações à visitação pública e reabrindo outras, para que todas sejam preservadas. O Panteão, por exemplo, está nesse momento com a fachada cheia de andaines e deve ficar assim por um bom tempo. Se isso vai tirar o charme das fotos que você pretendia fazer, console-se com a recuperação do Juízo Final, o fantástico afresco de Michelangelo em exposição na Capela Sistina, que passou anos sendo recuperado. Quem viu a obra de Michangelo antes da restauração, não viu com as cores que tem hoje.

O Vaticano é um território especial dentro de Roma, não só por sua condição de Estado independente, mas pela concentração de atrativos turísticos, além de poder e mistério, numa área tão pequena. Instalados em palácios renascentistas construídos para os papas, seus museus se juntam numa enorme galeria ao lado da basílica e reúnem uma das maiores coleções de arte do mundo inteiro. Se dedicasse um minuto para ver cada uma das mais de 18 mil esculturas, afrescos e relíquias religiosas em exposição, durante as oito horas por dia, uma pessoa precisaria passar 38 dias aqui dentro para ver tudo direito.

Como os museus vivem cheios, o labirinto de corredores serve para conter a multidão e evitar que a Capela Sistina e as Salas de Rafael fiquem entupidas de gente. OS mais afoitos, que quiserem ir direto para as principais atrações, são induzidos por placas a fazer um trajeto tortuoso, pelo mesmo motivo. Por isso, o melhor é relaxar, selecionar com a ajuda de um guia as obras que julgar mais interessantes e deixar a visita à basílica para outra hora. Se quiser ver o papa, vá à basílica aos domingos, quando João Paulo II fala aos fiéis na Praça de São Pedro ao meio-dia. Mas se o papa estiver viajando quando você for a Roma, o que ele faz bastante, encare isso com a mesma naturalidade que se deve ter diante de um monumento em restauração, ou de um museu romano fechado por greve de funcionários. E aproveite, digamos, para passear na Via Veneto, conhecer o mercado de pulgas de Porta Portese (se for um domingo) ou andar de bicicleta no enorme parque de Villa Borghese onde, por sinal, fica o tal Museu Etrusco citado por aquele seu amigo.

Investir numa refeição mais demorada também é sempre uma ótima opção. Os restaurantes populares, que podem ser designados pelos mais diversos nomes, como tratoria, tavola calda, osteria, taverna e locande, espalham-se pela cidade inteira, mas concentram-se sobretudo no bairro Trastevere e nas imediações das praças mais movimentadas. Os que funcionam ao ar livre, cercados por canteiros de plantas, são os mais sedutores mas talvez numa visita durante o verão, mas às vezes a melhor comida se esconde em minúsculos estabelecimentos de ruas comerciais. Para descobrir um desses endereços anônimos, aposte no bom gosto do recepcionista do hotel ou do taxista, perguntando a eles onde gostam de comer com a família.Se quiser animar o ambiente, fale de futebol com um dos garçons: em dois minutos todos estarão discutindo, pela enésima vez, se o time do Roma é melhor do que o Lazio, ou vice-versa.

Roma é assim, uma cidade perfeita para se peder, andar simplesmente pelo prazer de ser perder numa cidade onde aprendi que vaguear não significa estar sem rumo.

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