My dream is having all this map painted in red

Wednesday, 25 February 2009

Bruxelas

 

 

 

Toda cidade tem um monumento só seu, um símbolo, uma impressão digital, o Coliseu em Roma, a Estátua da Liberdade em Nova York, o Corcovado no Rio de Janeiro e por aí afora. Bruxelas, capital da Bélgica e centro das decisões da União Européia, também tem seu ícone, o Menekken Pis. Não é um colosso, uma torre ou um castelo sisudo. O cartão-postal de Bruxelas tem pouco mais de 60 centímetros e é um daqueles menininhos pelados, fazendo xixi. Ele não exalta as glórias do país, tampouco homenageia algum herói conhecido. Mas esse pequeno garoto resume a personalidade da capital belga, muito mais famosa pela austeridade nos negócios do que pelo desprendimento no dia-a-dia. Não fosse esse menino, demoraria para descobrir que, fora do horário comercial, Bruxelas é, também, uma cidade criativa, versátil e muito bem-humorada.

 

 

 


Como em quase todas as cidades européias, Bruxelas também tem um centro velho e uma praça central, a Grand Place. Muita gente a considera uma das praças mais bonitas do mundo, junto com a Praça Staromest Rad, em Praga, ou a Piazza San Marco, em Veneza. E com razão. Construída entre os séculos XIII e XV, a Grand Place de Bruxelas preserva em seu entorno casas que pertenceram a reis e nobres no passado, numa surpreendente harmonia arquitetônica. A prefeitura, um dos prédios mais emblemáticos da cidade, também está ali. À noite, sob luzes especiais, a Grand Place fica ainda mais sedutora.
É nessa praça que está o melhor de Bruxelas. São museus, cafés, cervejarias e lojas de chocolate, em ambientes acolhedores, que num primeiro olhar combinam apenas com os ventos frios do inverno. Na primavera e no verão, porém, dizem os locais, o cenário muda, a praça vira um teatro aberto para artistas de rua, com shows e concertos de primeira linha. Sob a luz do sol, as cafeterias também se transformam, colocando as mesas na calçada para servirem de camarote à festa ao ar livre na praça. Esse lado mais espontâneo de Bruxelas é quase um segredo. Ouve-se  muito mais sobre a solidez das empresas belgas do que sobre a animação de suas cervejarias. E os freqüentes encontros de Estado nesse país, que tem inclinação para a diplomacia, viram notícia muito mais rápido do que, por exemplo, o entusiasmo de suas torcidas de futebol.

 

O espírito livre e criativo de Bruxelas, que a Grand Place confirma tão bem, pode não transitar tanto pela mídia, mas está nos ateliês de design, nos antiquários da Praça du Grand Sablon e até nas vitrines das incontáveis lojas de chocolate. Há um bom gosto permeando quase tudo, algo que está impresso no código genético da cidade, ela nasceu de uma pequena colônia de artesãos e ardorosos comerciantes que, no final do século X, se estabeleceu ao redor de um grande castelo.

 

 


Foi em Bruxelas que, em 1847, numa atitude pioneira, alguns arquitetos construíram uma cúpula sobre uma pequena rua de comércio, criando as Galerias Saint-Hubert, depois divididas com nomes sugestivos, Galeria do Rei, da Rainha e da Princesa. Mais tarde, o lugar atraiu lojas chiques e tornou-se o embrião de um nosso muito conhecido, o Shopping Center. As Galerias Saint-Hubert preservam ainda o charme daqueles tempos. Mas hoje, as lojas de griffes espalham-se também ao longo da Avenue Louise, uma região onde Bruxelas se revela bastante cosmopolita, e com ares bem diferentes que os do centro velho.

 


O melhor exemplo dessa outra Bruxelas é o centro multimídia Atomium,  uma obra high tech que, como o nome sugere, tem o formato de um átomo, obviamente em versão ampliada 165 bilhões de vezes. Construído para a Exposição Mundial de 1958, o Atomium domina a paisagem com sua aparência futurista, em meio ao verde do Boulevard du Centenaire. Lá dentro, percorrendo os estranhos e inclinados corredores que unem as esferas desse átomo gigantesco, descobre-se um centro cultural bem equipado, salas de exposição e, bem no alto, uma vista maravilhosa da cidade.

 


Um dos passeios obrigatórios em Bruxelas é o Centro Belga de Histórias em Quadrinhos. Afinal, este é o país de um dos heróis do gênero, o Tintin, de Hergé. Além de uma exposição permanente, as paredes desse museu têm outro apelo, a casa foi projetada pelo arquiteto Victor Horta, um dos criadores da art noveau, um estilo que nasceu em Bruxelas e se espalhou em obras de arte e construções de todo o mundo.

 

Bruxelas também soube assimilar influências que determinariam sua natureza multicultural. Durante os séculos XVI e XVII, foi domínio dos Habsburgos espanhóis. Depois, foi capital dos Países Baixos, Bélgica, Holanda e Luxemburgo. Mais tarde ainda, o país passou por mãos austríacas, francesas e alemãs. Ainda hoje, Bruxelas é o umbigo de um país cujo norte é flamengo (de língua e cultura holandesas) e o sul, valão (que é todo francês). E embora haja discordâncias crescentes entre essas duas Bélgicas, Bruxelas se transformou numa espécie de território neutro e muito tranqüilo, que passa ao largo de qualquer diferença.


 

 

 

E se há um lugar onde todos se tornam iguais nessa cidade esse lugar é na Petite Rue des Bouchers, que concentra alguns de seus melhores restaurantes. O hit culinário da cidade para a minha tristeza pessoal são as moules, que nós conhecemos como mariscos. Na Bélgica eles são gratinados, servidos ao molho de tomate ou, simplesmente, cozidos com ervas. E sempre acompanhados de prosaicas batatas fritas. Os restaurantes mais caprichosos arrumam as mesas do lado de fora, expondo os frutos do mar ao desejo dos passantes.
Para sobremesa, Bruxelas tem o chocolate Godiva, tido como um dos melhores do mundo. há lojas dessa marca espalhadas por todo canto. E também o waffle, outra paixão nacional, que pulveriza as ruas com um irresistível cheirinho adocicado.
Outra delícia são os mais de 400 tipos de cerveja produzidos na cidade. Uma das mais tradicionais chama-se La Mort Subite ("A Morte Súbita"), cujo nome vem de quando ainda era costume jogar dados nas cervejarias, em disputas que acabavam de repente. Quem perdia pagava a conta.

 


Mas, por incrível que pareça, o lugar mais visitado de Bruxelas ainda é a fonte do Menekken Pis, nas vizinhanças da Grand Place. Há muitas histórias tentando explicar o carisma desse pequeno monumento. A versão mais aceita é a que lembra o episódio da Grand Place destruída por um bombardeio francês no século 17. Reza a lenda que um menino teria apagado o incêndio assim, fazendo xixi. E o bonequinho é tratado com certas honras, há, por exemplo, uma coleção de quase 700 roupinhas para vesti-lo convenientemente nos dias de festa, este lado cômico da cidade foi uma descoberta para mim e fez desta viagem uma revelação, pelo menos para mim.
Você diria que a Bélgica seria tão bem humorada assim?

 

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