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Monday, 30 November 2009

Sugestão de leitura para quem vai a Paris

Paris - Julien Green

 

 

Comprei este livro a alguns meses atrás durante uma das minhas muitas visitas a Fnac. Um livro escrito por Julien Green e traduzido em Portugal pelo jornalista Carlos Vaz Marques e que gostei muito de ler, o livro fala da Paris de "Julien Green", uma visão muito pessoal sobre a capital francesa escrita por este autor e que vale a pena ler. Aproveito também para parabenizar o trabalho de tradução realizado por Carlos Vaz Marques neste e em outros livros traduzidos por ele que já li.

 

Tomo a liberdade de transcrever aqui um trecho do livro que gosto muito e que consta na contra capa do mesmo e o prefácio do livro escrito por Carlos Vaz Marques.

 

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Paris é uma cidade de que se poderia falar no plural, tal como os gregos falavam de Atenas, porque há muitas parises e a dos estrangeiros só superficialmente tem algo em comum com a Paris dos parisienses. A não ser que se tenha perdido realmente tempo numa cidade, ninguém poderá considerar que a conhece bem. A alma de uma grande cidade não se deixa apreender facilmente; é preciso, para se comunicar com ela, termo-nos aborrecido, termos de algum modo sofrido nos lugares que as circunscrevem. Seja quem for, pode, sem dúvida, munir-se de um guia e constatar a presença de todos os monumentos, mas dentro dos próprios limites da cidade de Paris existe um outra cidade de tão difícil acesso como foi difícil outrora o acesso a Timbuctu. «Julien Green»

 

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Prefácio

 

Há neste livro uma palavra que ficou deliberadamente por traduzir. Talvez aquela que melhor define o espírito deste texto e o espírito com que Julien Green o escreveu. Flâneur, na definição do Grande Dicionário de Francês-Português Domingos Azevedo, é aquele «que passa o tempo passeando sem destino pelas ruas e praças». Será também o «ocioso», ou mesmo, na definição do dicionário da Porto Editora, o «vadio», «o polidor de calçadas». Em todo o caso, traduções que não esgotam nem transportam em si a polissemia e o perfume da palavra francesa.

 

É certo que o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa recolhe o termo flanador, a palavra flanância e mesmo o verbo flanar. Galicismos cujas primeiras ocorrências datam de finais do século XIX (com excepção de flanância, de que só há registo já nos anos setenta do século XX). Expressões que o idioma nunca terá absorvido por inteiro e que estão longe de fazer parte do léxico comum.

 

O que as palavras (ou a ausência delas) dizem acerca dos hábitos dos povos seria matéria para as mais absorventes especulações, naturalmente, mas não é este o momento apropriado para esse tipo de exercícios. Será de notar, contudo, que na língua portuguesa também se passeia, também de deambula, também se vagueia e se perambula, embora sem que esses saudáveis hábitos tenham sido elevados, pelo menos em termos lexicais, à categoria de um estado de espírito e de um modo de estar claramente identificáveis. É aqui que entra o conceito de flânerie, em que cabe por inteiro este texto belíssimo e inclassificável.

 

Ficará para os exegetas da obra de Julien Green decifrar até que ponto terá sido relevante, para a relação do escritor com a cidade onde nasceu, o facto de ele ter querido manter-se estrangeiro nela até o fim da vida. Estrangeiro, aqui, não é uma força de expressão, nem um recurso estilístico. Trata-se da descrição prosaica e factual do estatuto de cidadão norte-americano de que nunca abdicou. Nem mesmo quando o presidente Pompidou lhe propôs que aceitasse a cidadania francesa.

 

Filho de pais emigrados, vindos da América sulista, Julien Green nasceu em Paris, viveu em Paris durante toda a ida (à excepção dos tempos de estudante e do período de exílio que correspondeu à Segunda Guerra Mundial), morreu em Paris e foi, nas suas próprias palavras, «um escritor francês de nacionalidade americana». Tornar-se-ia, aliás, o primeiro escritor estrangeiro a conquistar um lugar na Academia Francesa.

 

Paris é, de alguma forma, uma espécie de testamento. Foi um dos últimos livros publicados por Julien Green e não será descabido ver nele a chave para muito do que o autor escreveu. Uma chave que o próprio assinala, referindo-se expressamente a alguns dos romances que publicou.

 

Mais do que um texto atravessado por uma melancolia que tem já qualquer coisa de despedida, Paris será, acima de tudo, no entanto, uma declaração de amor, um álbum de memórias e um guia poético e pessoalíssimo sobre uma cidade transformada em personagem central não só deste livro como da própria vida do seu autor.

 

Literatura de viagens, portanto. Porque há intensidades amorosas que só a literatura sabe exprimir. Do mesmo modo que há descobertas que só se fazem viajando. Seja a viagem para os antípodas ou, como neste caso, em pequenos passos, numa flânerie permanente, à volta do lugar que se aprendeu a conhecer como nosso, num trajecto feito não só no espaço mas também (e talvez sobretudo) no tempo. «Carlos Vaz Marques»

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